Em 26 de abril de 1986, uma explosão no reator 4 da Usina Nuclear de Chernobyl mudou para sempre a vida de milhares de pessoas. Pripyat se tornou o símbolo mais conhecido do desastre, mas ela não foi a única localidade esvaziada.
Até o fim de 1986, cerca de 116 mil pessoas haviam sido retiradas de 188 localidades, incluindo cidades e vilarejos situados dentro e ao redor da região contaminada, segundo registros da Usina Nuclear de Chernobyl.
Quarenta anos depois, algumas dessas áreas continuam praticamente abandonadas, outras servem de apoio às operações da Zona de Exclusão e muitas foram engolidas pela vegetação. A pergunta é: o que aconteceu com esses lugares depois que seus moradores foram embora?

Primeiro: Chernobyl e Pripyat não são a mesma cidade
Essa confusão é muito comum. Pripyat era a cidade planejada para abrigar trabalhadores da usina e suas famílias. Ficava a poucos quilômetros do complexo nuclear e foi evacuada em 27 de abril de 1986.
Já Chernobyl é uma cidade mais antiga, localizada mais distante da usina. Hoje ela integra a estrutura operacional da Zona de Exclusão e continua ligada às atividades administrativas, técnicas e de monitoramento da região.
Essa diferença é importante porque, enquanto Pripyat se tornou essencialmente uma cidade fantasma, Chernobyl não desapareceu completamente das atividades da região.
Pripyat: a cidade que ficou vazia em poucas horas
Pripyat é provavelmente a imagem mais conhecida de todo o desastre. A evacuação começou na tarde de 27 de abril de 1986. Dezenas de milhares de moradores deixaram suas casas acreditando que a saída seria temporária.
Não retornariam para viver ali.

Hoje, Pripyat continua praticamente vazia. Prédios residenciais permanecem de pé, mas estão deteriorados. Árvores cresceram entre ruas e construções. Escolas, ginásios, hotéis e instalações públicas foram sendo tomados pelo tempo e pela vegetação.
O mais impressionante é perceber que não estamos olhando para ruínas de uma civilização antiga. São apartamentos, escolas e espaços públicos de uma cidade relativamente moderna que perdeu sua população quase de um dia para o outro.

A cidade de Chernobyl teve um destino diferente
A cidade que deu nome ao desastre não ficou completamente parada no tempo. Chernobyl hoje faz parte da infraestrutura que sustenta as atividades da Zona de Exclusão.
Existem instalações administrativas e estruturas para trabalhadores e serviços ligados ao monitoramento e à segurança da região. O próprio site oficial da usina mantém procedimentos para pessoas autorizadas que precisam entrar na área. Veja as informações oficiais de acesso na página Visit Chornobyl NPP.
E os outros locais evacuados?
Esse é um dos aspectos menos conhecidos da história. Pripyat ficou famosa porque era uma cidade relativamente grande e planejada, mas muitas pequenas comunidades também foram afetadas.
Vilarejos rurais perderam seus moradores. Casas foram abandonadas, fazendas deixaram de funcionar e estradas perderam movimento. Em muitas dessas localidades, a vegetação avançou ainda mais rapidamente do que em Pripyat.
Kopachi: um vilarejo que praticamente desapareceu
Um dos exemplos mais curiosos é Kopachi, uma pequena localidade próxima à usina. Depois do acidente, a área foi evacuada e grande parte das construções de madeira foi demolida durante as operações de descontaminação.
Por isso, Kopachi oferece uma imagem muito diferente de Pripyat. Enquanto em Pripyat ainda existem blocos inteiros de apartamentos, em localidades menores restaram poucas estruturas e sinais de que um dia havia uma comunidade naquele lugar.

A natureza realmente tomou conta da Zona de Exclusão?
Em muitos pontos, sim. Quando milhares de moradores desapareceram de uma região tão extensa, uma transformação começou silenciosamente. Campos deixaram de ser cultivados, estradas passaram a ter pouco tráfego, construções começaram a se deteriorar e a vegetação avançou.
Animais selvagens também circulam por áreas que antes eram fortemente ocupadas por pessoas. Isso, porém, não significa que a contaminação tenha desaparecido. A presença de fauna mostra também o efeito da redução drástica da pressão humana sobre o ambiente.
Ainda existe radiação?
Sim. E um dos pontos mais importantes é evitar a ideia de que toda a radiação simplesmente “sumiu” depois de 40 anos.
Os níveis de contaminação variam conforme a localização. Algumas áreas podem ser acessadas por trabalhadores seguindo protocolos específicos; outras exigem controles mais rigorosos. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) continua acompanhando temas relacionados à segurança nuclear e radiológica de Chernobyl.
Portanto, Chernobyl não é uma área simplesmente “segura outra vez”.
A usina ainda funciona?
Não para produzir eletricidade. Mas a enorme instalação continua longe de estar “morta”. Trabalhadores atuam no descomissionamento dos antigos reatores, gerenciamento de resíduos, combustível nuclear usado, monitoramento e segurança.

Em 2026, a administração da usina continuava divulgando avanços nas etapas de descomissionamento. O processo completo ainda deverá se estender por décadas. Informações atualizadas podem ser consultadas na página oficial de descomissionamento da Chornobyl NPP.
E o reator que explodiu?
Os restos do reator 4 continuam no local. Primeiro foi construída uma estrutura emergencial conhecida como “sarcófago”. Décadas depois, um gigantesco arco metálico — o New Safe Confinement — foi instalado para reduzir riscos e permitir trabalhos de longo prazo.
Em 14 de fevereiro de 2025, a estrutura foi atingida por um drone, provocando incêndio e danos. A AIEA informou que não foi detectado aumento anormal da radiação após o episódio.
Esse episódio mostra algo impressionante: o acidente aconteceu há quatro décadas, mas a história de Chernobyl ainda está sendo escrita.
A guerra mudou novamente a Zona de Exclusão
Desde a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia em 2022, Chernobyl voltou a estar ligada não apenas ao risco nuclear histórico, mas também à segurança militar. A área passou por ocupação, operações militares e novos episódios envolvendo drones.
Isso acrescentou um problema que praticamente ninguém imaginava em 1986: uma instalação nuclear desativada, mas ainda sensível, situada em uma região afetada por conflito armado.
Essas cidades poderão voltar a ser habitadas algum dia?
Essa pergunta não possui uma resposta simples. Diferentes materiais radioativos têm tempos de decaimento diferentes, e a contaminação não está distribuída de maneira uniforme.
Além disso, depois de quatro décadas sem manutenção normal, existe outro problema: a própria infraestrutura urbana. Muitos edifícios de Pripyat estão deteriorados. Sistemas de água, energia, transporte e saneamento teriam que ser reconstruídos ou substituídos.
Mesmo que determinadas áreas apresentem condições radiológicas melhores no futuro, transformar Pripyat novamente em uma cidade normal exigiria muito mais do que simplesmente esperar a radiação diminuir.
Talvez nunca tenha existido um “antes e depois” tão visível
Poucos lugares permitem enxergar de maneira tão clara o impacto de uma única madrugada sobre várias gerações.
Em 1986 havia famílias, escolas, mercados, apartamentos e crianças brincando nas ruas. Quarenta anos depois, árvores crescem entre os prédios, animais atravessam estradas praticamente vazias e a roda-gigante continua parada.
Ao mesmo tempo, profissionais continuam trabalhando para administrar uma instalação nuclear cujo descomissionamento ainda levará anos.
O tempo avançou. Mas Chernobyl ainda não terminou.
Perguntas frequentes
Quantas localidades foram evacuadas por causa de Chernobyl?
Até o fim de 1986, cerca de 116 mil pessoas haviam sido retiradas de 188 localidades, segundo registros oficiais da usina.
Pripyat ainda tem moradores?
Pripyat não funciona mais como uma cidade residencial normal. A circulação na região é controlada e ligada principalmente a atividades autorizadas na Zona de Exclusão.
Chernobyl também está completamente abandonada?
Não. A cidade de Chernobyl continua ligada à estrutura de apoio e administração da Zona de Exclusão.
Ainda existe radiação em Chernobyl?
Sim. Os níveis variam de acordo com o local, e diferentes áreas permanecem sujeitas a controle radiológico.
A usina ainda gera energia?
Não. A instalação está em processo de descomissionamento, gerenciamento de resíduos e monitoramento nuclear.
Nota editorial: este artigo foi preparado com informações disponíveis até setembro de 2026 e prioriza dados da Usina Nuclear de Chernobyl e da Agência Internacional de Energia Atômica. A imagem destacada é uma ilustração gerada por inteligência artificial; as imagens internas identificadas são fotografias reais.
