A cidade mais fria do mundo: como é viver em Yakutsk a quase 50 graus abaixo de zero

Por Paula Guarini

Rua coberta de neve em Yakutsk, cidade da Sibéria conhecida pelos invernos extremamente frios

Imagine sair de casa para trabalhar enquanto os termômetros se aproximam de −50 °C. Em Yakutsk, no leste da Sibéria, na República de Sakha (Yakútia), isso não é apenas uma cena de documentário: faz parte dos invernos mais rigorosos enfrentados por uma grande cidade.

Yakutsk é frequentemente chamada de “cidade mais fria do mundo”. O apelido não é um título oficial da meteorologia, mas ajuda a explicar o que torna o lugar tão incomum: centenas de milhares de pessoas vivem em um centro urbano onde o frio extremo faz parte da rotina.

Segundo a administração oficial de Yakutsk, a cidade tinha 384.979 habitantes em 1º de janeiro de 2024. Ou seja, estamos falando de uma capital regional com escolas, hospitais, comércio, prédios e toda a infraestrutura de uma cidade de grande porte.

Por que Yakutsk é chamada de cidade mais fria do mundo?

O que chama atenção em Yakutsk não é apenas uma temperatura recorde isolada, mas a combinação entre frio extremo e uma população urbana numerosa.

Dados climáticos compilados para a estação de Yakutsk entre 1992 e 2021 mostram janeiro com temperatura média próxima de −38 °C, enquanto as mínimas médias ficam por volta de −41 °C. A própria administração municipal descreve que, durante o inverno, as temperaturas podem atingir a faixa dos −50 °C.

Para conferir as médias climáticas, veja os dados de clima de Yakutsk. A informação sobre episódios próximos de −50 °C também aparece no site oficial da cidade.

As pessoas continuam trabalhando e estudando nesse frio?

Sim, embora o frio possa alterar a rotina quando as condições ficam mais severas. Em 16 de janeiro, por exemplo, a administração municipal de Yakutsk declarou um dia de dispensa escolar devido ao frio para alunos do 1º ao 5º ano, quando os termômetros marcavam −42 °C em uma área da cidade e −45 °C na região do aeroporto. O próprio comunicado esclarecia que os responsáveis ainda podiam decidir pela presença dos alunos.

Isso mostra uma diferença importante: viver em Yakutsk não significa ignorar o frio. Significa ter infraestrutura, roupas e protocolos adaptados a ele.

O que um frio desses pode fazer com o corpo?

O frio extremo pode se tornar perigoso rapidamente. O Centers for Disease Control and Prevention (CDC) explica que, em baixas temperaturas, o corpo pode perder calor mais rápido do que consegue produzi-lo, levando à hipotermia.

O CDC também alerta para o congelamento dos tecidos (frostbite), que atinge principalmente áreas como nariz, orelhas, bochechas, queixo, dedos das mãos e dos pés. Casos graves podem provocar danos permanentes.

Por isso, cobrir a pele e usar várias camadas de roupa não é apenas uma questão de conforto em lugares como Yakutsk.

A cidade está construída sobre solo permanentemente congelado

Outra curiosidade impressionante está debaixo dos pés dos moradores.

Yakutsk está em uma região de permafrost, nome dado ao terreno que permanece a 0 °C ou abaixo por pelo menos dois anos consecutivos. Em partes da cidade, esse solo contém grandes quantidades de gelo, o que torna a construção de edifícios um desafio de engenharia.

Um estudo científico sobre o permafrost urbano de Yakutsk explica que muitos edifícios de vários andares foram projetados com fundações que procuram preservar o solo congelado sob as construções.

Isso acontece porque, se o gelo presente no terreno derreter, as propriedades do solo podem mudar e comprometer sua capacidade de sustentar estruturas.

O permafrost também está mudando

O solo congelado não é apenas uma curiosidade geográfica. Ele é parte importante da infraestrutura da cidade.

Pesquisadores vêm acompanhando mudanças na temperatura do permafrost de Yakutsk e seus possíveis efeitos sobre fundações e construções. Um estudo sobre edifícios industriais em Yakutsk, por exemplo, analisou como o regime térmico do terreno influencia a estabilidade das estruturas.

Em uma cidade erguida sobre solo congelado, alterações na temperatura do terreno são também uma questão de engenharia.

E Yakutsk tem verão?

Essa talvez seja uma das maiores surpresas para quem conhece Yakutsk apenas pelas imagens de inverno.

Tem verão — e pode fazer calor.

As mesmas séries climáticas que mostram janeiro perto de −38 °C apontam julho com média próxima de 19 °C e máximas médias acima de 24 °C. Em julho de 2026, a administração municipal informou temperaturas chegando a +35 °C durante um período de calor intenso.

Ou seja, Yakutsk pode enfrentar uma diferença de dezenas de graus entre inverno e verão. É um exemplo extremo de clima continental.

Mas Oymyakon não é o lugar mais frio?

É aqui que surge uma confusão muito comum.

Oymyakon, também na República de Sakha, é uma pequena localidade mundialmente conhecida pelo frio. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) reconhece −67,8 °C, em 6 de fevereiro de 1933, como o recorde de temperatura mínima da sua Região II, que corresponde à Ásia.

A diferença está no tamanho e no contexto: Oymyakon é uma pequena localidade; Yakutsk é uma cidade com centenas de milhares de habitantes.

É justamente por isso que Yakutsk costuma aparecer na imprensa e em conteúdos de geografia como a “cidade mais fria do mundo”, enquanto Oymyakon é frequentemente citada entre as localidades permanentemente habitadas mais frias.

Oymyakon também não possui mais o recorde do Hemisfério Norte

Essa é uma curiosidade que muita matéria antiga ainda apresenta de forma desatualizada.

A Organização Meteorológica Mundial confirmou que uma estação meteorológica automática na Groenlândia registrou −69,6 °C em 22 de dezembro de 1991.

Esse valor é atualmente reconhecido pela OMM como a menor temperatura oficialmente registrada no Hemisfério Norte. A medição superou os −67,8 °C associados a Oymyakon e Verkhoyansk.

Qual foi a menor temperatura já registrada na Terra?

Para encontrar o recorde mundial oficial, precisamos sair da Rússia e ir até a Antártida.

A OMM reconhece −89,2 °C registrados na Estação Vostok, em 21 de julho de 1983, como a menor temperatura medida em solo por uma estação meteorológica e reconhecida oficialmente no mundo.

Então qual é a diferença entre Yakutsk, Oymyakon e Vostok?

LocalPor que é famoso
YakutskGrande cidade conhecida pelos invernos extremamente frios e por ter centenas de milhares de habitantes.
OymyakonPequena localidade da Rússia associada ao registro de −67,8 °C em 1933.
Klinck, GroenlândiaEstação meteorológica que registrou −69,6 °C em 1991, atual recorde oficial do Hemisfério Norte.
Estação VostokLocal do recorde mundial oficial de −89,2 °C, na Antártida.

Como uma cidade desse tamanho cresceu em um lugar tão frio?

Yakutsk tem séculos de história. De acordo com a administração municipal, a cidade surgiu no século XVII e, em 1638, tornou-se centro administrativo da região.

Hoje, é um importante centro político, econômico, científico e cultural do extremo leste russo.

Isso torna Yakutsk especialmente fascinante. Não é uma estação científica isolada nem um vilarejo quase vazio: é uma cidade grande que desenvolveu sua rotina em um dos ambientes urbanos mais frios do planeta.

Afinal, Yakutsk é realmente a cidade mais fria do mundo?

Não existe um ranking oficial da Organização Meteorológica Mundial que conceda a uma cidade o título de “cidade mais fria do mundo”. Por isso, a expressão deve ser entendida como uma forma popular de descrever Yakutsk.

O que os dados permitem afirmar com segurança é que Yakutsk está entre as grandes cidades mais frias do planeta e enfrenta temperaturas de inverno extraordinariamente baixas para um centro urbano com quase 400 mil habitantes.

E talvez seja justamente esse contraste que torne o lugar tão curioso: enquanto temperaturas próximas de −40 °C paralisariam muitas cidades, em Yakutsk elas fazem parte de uma realidade conhecida por gerações de moradores.

O que mais impressiona em Yakutsk não é o recorde de frio

Depois de analisar esses dados, o que mais me chama atenção em Yakutsk não é descobrir se ela ocupa ou não o primeiro lugar em algum ranking.

É perceber que quase 400 mil pessoas construíram uma rotina urbana em condições que, para grande parte do mundo, significariam viver no limite.

Escolas adaptam atividades, edifícios precisam considerar o permafrost e até o fornecimento de energia exige cuidados específicos.

Isso muda a forma de olhar para a história. Yakutsk não é interessante apenas porque faz muito frio. Ela mostra como uma cidade inteira pode adaptar infraestrutura, hábitos e decisões cotidianas às limitações impostas pelo ambiente.

Talvez essa seja uma curiosidade maior do que qualquer recorde de temperatura.

Quer conhecer Yakutsk mais de perto?

Para quem ficou curioso para ver como é a cidade, as ruas e a rotina de quem vive em um lugar com temperaturas tão extremas, o vídeo abaixo funciona como uma referência visual complementar ao artigo. Ele ajuda a conhecer melhor Yakutsk na prática, enquanto os dados climáticos e científicos desta matéria continuam baseados nas fontes oficiais listadas abaixo.

Fontes consultadas

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