Nos últimos dias, uma sequência de anúncios, exercícios militares e novas medidas de segurança voltou a colocar a relação entre Europa e Rússia no centro das atenções.
França reforçou a proteção de infraestruturas críticas. Polônia anunciou novas medidas de segurança e aderiu a uma coalizão voltada à defesa contra mísseis balísticos. Alemanha e Suécia realizam um exercício militar conjunto no Mar Báltico. A Suíça aprovou uma nova estratégia de segurança. E a OTAN voltou a dizer publicamente que está reforçando sua capacidade de defesa.
Do outro lado, Vladimir Putin acusa governos europeus de se prepararem para uma eventual guerra contra a Rússia e afirma que Moscou não pretende atacar países europeus. A concentração de acontecimentos em poucos dias ajuda a explicar por que surgiram vídeos e manchetes falando até em uma possível Terceira Guerra Mundial.
Mas é importante separar uma coisa da outra: o reforço das defesas europeias é real. Isso não significa que exista hoje uma confirmação de que uma guerra direta entre Rússia e OTAN esteja prestes a começar.
O que mudou nos últimos dias?
A tensão não começou agora. Desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, os países europeus vêm revendo gastos militares, sistemas de defesa e sua capacidade de responder a ameaças.
O que chama atenção em setembro de 2026 é a quantidade de medidas anunciadas praticamente ao mesmo tempo. Além da guerra convencional na Ucrânia, governos europeus e a OTAN vêm demonstrando preocupação crescente com ameaças chamadas de híbridas.
Esse conceito inclui ações que podem ocorrer sem uma declaração formal de guerra, como ataques cibernéticos, sabotagem, desinformação, espionagem e uso de drones contra estruturas estratégicas. Governos europeus e a OTAN atribuem à Rússia parte dessas atividades; Moscou contesta acusações ocidentais e acusa o bloco de ampliar a confrontação.
França prepara proteção para infraestrutura crítica
Em 18 de setembro, o presidente francês Emmanuel Macron anunciou novas medidas para proteger infraestruturas consideradas essenciais. Segundo a Reuters, o governo francês afirma que ameaças híbridas atribuídas à Rússia estão se intensificando, com riscos envolvendo drones, ataques cibernéticos e sabotagem.
A França não anunciou que uma guerra começou nem que um ataque russo é inevitável. O que existe é uma ampliação das medidas preventivas diante de um ambiente considerado mais arriscado.
Polônia diz que precisa estar preparada para diferentes cenários
A preocupação é ainda maior nos países próximos da Rússia, de Belarus e da Ucrânia. Em setembro, o primeiro-ministro Donald Tusk disse que o país precisa estar preparado para diferentes cenários. O governo da Polônia publicou a posição oficialmente.
No dia seguinte, a Polônia anunciou sua participação em uma coalizão com a Ucrânia e outros parceiros para desenvolvimento de um sistema de defesa contra mísseis balísticos, segundo a Reuters.
Essas declarações representam uma avaliação de risco feita pelo governo polonês. Elas não significam que um ataque esteja confirmado.
Alemanha e Suécia treinam juntas no Mar Báltico
Entre 14 e 23 de setembro, militares da Alemanha e da Suécia participam do exercício Silver Wotan, realizado no ar, em terra e no mar, próximo à ilha sueca de Gotland.
Segundo a Bundeswehr, o exercício simula uma situação de possível escalada no flanco norte da OTAN e envolve, entre outras ações, a proteção de sistemas suecos de mísseis antinavio.
A própria Bundeswehr ressalta que exercícios como esse não são resposta a um único acontecimento, mas fazem parte da preparação militar e da lógica de dissuasão: demonstrar capacidade de defesa para tentar desencorajar um eventual ataque.
Até a Suíça está reforçando sua estratégia de segurança
Em 18 de setembro, o governo suíço aprovou sua Estratégia de Política de Segurança 2026, com dez objetivos e 46 medidas voltadas para resiliência, proteção e capacidade de defesa.
O documento cita a guerra da Rússia contra a Ucrânia, ameaças híbridas e o aumento da instabilidade internacional. Há, porém, um detalhe importante: o próprio governo suíço afirma que um ataque armado direto contra a Suíça continua sendo considerado improvável no futuro previsível, embora reconheça riscos envolvendo drones, mísseis, ciberataques, espionagem e sabotagem.
Esse contraste ajuda a entender o cenário atual: um país pode aumentar significativamente sua preparação sem afirmar que uma guerra é iminente.
O que a OTAN está dizendo?
Nos dias 18 e 19 de setembro, chefes militares dos 32 países da OTAN se reuniram em Copenhague. O encontro discutiu defesa coletiva, novas capacidades militares, inovação tecnológica e apoio à Ucrânia.
Em comunicado oficial, a OTAN afirmou que permanece vigilante e preparada para defender o território de seus membros, além de voltar a atribuir à Rússia atividades híbridas e incidentes envolvendo drones e espaço aéreo.
Preparação militar, porém, não é sinônimo de previsão de guerra. A lógica declarada da aliança é baseada em defesa coletiva e dissuasão.
E os Estados Unidos?
O Pentágono está realizando uma revisão da presença militar americana na Europa. Segundo a Reuters, uma das possibilidades consideradas poderia envolver uma redução de até aproximadamente 25 mil militares, mas a revisão ainda está em andamento e nenhuma retirada desse tamanho foi anunciada como decisão final.
Ao mesmo tempo, em 22 de setembro, o presidente da Lituânia informou que uma nova rotação de tropas americanas estava a caminho do país, reforçando a presença dos Estados Unidos no flanco oriental da OTAN. A informação também foi noticiada pela Reuters.
Por isso, resumir o cenário dizendo que “os Estados Unidos estão abandonando a Europa” seria simplificar demais uma estratégia que ainda está sendo revista.
Putin acusa a Europa de se preparar para uma guerra
A Rússia apresenta uma leitura praticamente inversa. Em 18 de setembro, Vladimir Putin afirmou que alguns líderes europeus estariam se preparando para uma guerra com a Rússia e disse que Moscou não teria intenção de atacar países europeus.
Essas são declarações do governo russo e devem ser apresentadas como tal. Do lado europeu, governos argumentam que o aumento da preparação militar ocorre em resposta à invasão da Ucrânia e ao que consideram crescente atividade híbrida russa.
A Groenlândia também entrou nesse tabuleiro
O Ártico é outro ponto estratégico dessa disputa. Em 22 de setembro, Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia estavam previstos para formalizar um acordo que amplia significativamente a presença militar americana na ilha, segundo a Reuters.
O acordo não significa que os Estados Unidos tenham assumido a soberania sobre a Groenlândia. A Dinamarca afirma que sua soberania continua preservada, assim como o direito de autodeterminação dos groenlandeses. Como o texto integral do acordo ainda não havia sido publicado no momento desta atualização, detalhes jurídicos devem ser acompanhados com cautela.
Então a Europa está se preparando para uma guerra?
A resposta exige cuidado. A Europa está claramente reforçando sua capacidade de defesa. Há exercícios militares, novos investimentos, proteção de infraestrutura, sistemas antimísseis, estratégias contra ataques cibernéticos e maior preocupação com drones e sabotagem.
O que não está demonstrado publicamente é que exista uma decisão tomada pela Rússia de iniciar uma guerra aberta contra países da OTAN ou que os governos europeus saibam que um confronto direto é inevitável.
Parte dessas medidas pode ser justamente uma tentativa de evitar que esse confronto aconteça. Em segurança internacional, demonstrar capacidade de reação é uma das formas usadas para tentar impedir que um adversário considere vantajoso atacar.
O que é fato e o que ainda é hipótese?
- Fato: vários países europeus estão aumentando sua preparação militar e proteção contra ameaças híbridas.
- Fato: a OTAN está reforçando sua capacidade de defesa coletiva.
- Fato: a guerra na Ucrânia continua sendo o principal elemento de tensão entre Rússia e países europeus.
- Fato: Moscou acusa a Europa de ampliar a confrontação e afirma não pretender atacar o continente.
- Ainda é hipótese: que uma guerra direta entre Rússia e OTAN esteja prestes a começar.
Transformar preparação militar em certeza de uma Terceira Guerra Mundial seria ir além das evidências disponíveis hoje, 22 de setembro de 2026.
O que observar daqui para frente
Os próximos sinais relevantes serão as decisões sobre a presença militar americana na Europa, novos exercícios da OTAN, movimentos de tropas no Báltico, medidas de proteção de infraestrutura crítica e qualquer mudança significativa no conflito da Ucrânia.
Também será importante acompanhar se as acusações de ataques híbridos produzem novas evidências verificáveis e se Moscou e os governos europeus mantêm ou elevam o tom de suas declarações.
O vídeo que motivou esta apuração
O vídeo abaixo reuniu várias dessas movimentações recentes e serviu como ponto de partida para esta apuração. As principais afirmações foram verificadas separadamente em fontes oficiais e reportagens internacionais antes de serem incorporadas ao artigo.
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Fontes consultadas
- OTAN — Military Committee Conference, Copenhague
- Governo da Suíça — Security Policy Strategy 2026
- Bundeswehr — exercício Silver Wotan em Gotland
- Governo da Polônia — segurança e preparação
- Reuters — França e ameaças híbridas
- Reuters — revisão da presença militar americana na Europa
- Reuters — acordo sobre a Groenlândia
