Em 1903, uma exposição de incubadoras para bebês prematuros começou a funcionar no Luna Park, em Coney Island, Nova York. A atração parecia incompatível com um parque de diversões, mas ali havia algo muito sério: profissionais cuidavam de recém-nascidos que precisavam de atenção especializada. Os visitantes pagavam para entrar; as famílias das crianças não pagavam pelo atendimento.
O responsável pela iniciativa mais conhecida foi Martin Couney. As incubadoras funcionaram em Coney Island por décadas, em um período em que muitos hospitais ainda não dispunham de estrutura suficiente para atender bebês nascidos antes do tempo. Mas a trajetória de Couney também é cercada de controvérsias — inclusive sobre sua suposta formação médica.
Imagem destacada: ilustração gerada por inteligência artificial, inspirada em equipamentos de incubação do início do século XX. Não é uma fotografia histórica. As fotografias documentais usadas no artigo trazem local, ano e crédito nas legendas.
Por que havia incubadoras dentro de um parque de diversões?
No final do século XIX e no começo do XX, o uso das incubadoras ainda se disseminava. Pesquisadores e profissionais já experimentavam formas de manter os recém-nascidos aquecidos, mas o cuidado neonatal especializado não estava disponível em todas as instituições.
As feiras internacionais se tornaram um dos lugares onde essas novas tecnologias eram apresentadas. Couney passou por exposições antes de chegar a Coney Island, e o formato atraía tanto curiosidade quanto críticas.
A Biblioteca Pública do Brooklyn encontrou notícias que registram a exposição no Luna Park já em 1903. No ano seguinte, o recém-inaugurado Dreamland também passou a oferecer uma instalação de incubadoras.

Como funcionava o atendimento aos recém-nascidos?
As crianças eram mantidas em incubadoras, que proporcionavam um ambiente aquecido e mais controlado. Enfermeiras e outros profissionais treinados cuidavam da alimentação, da higiene e do acompanhamento diário. O público observava o trabalho de fora das áreas de assistência.
Não era uma maternidade onde os bebês nasciam. Tratava-se de um espaço para crianças que já haviam nascido e precisavam de atendimento. O caráter de exposição pública criou uma combinação incomum de assistência e entretenimento.

O público pagava para ver os bebês?
Sim. O dinheiro das entradas ajudava a financiar a estrutura e o trabalho de quem atendia os recém-nascidos. Valores como 10 e 25 centavos aparecem em relatos de diferentes épocas e exposições; não é correto apresentar uma tarifa única para todos os anos.
Couney dizia que não cobrava das famílias. O modelo permitia manter o atendimento, mas levantava um dilema: seria aceitável transformar bebês vulneráveis em atração? Na época, organizações de proteção à infância e parte da comunidade médica criticaram duramente as exposições.
O debate ético é parte essencial da história, como mostram registros reproduzidos pela Biblioteca Pública do Brooklyn e a investigação publicada pela Smithsonian Magazine.
A rotina dentro dessas exposições
Fotografias históricas de exposições realizadas em outras cidades mostram como eram organizados os espaços de atendimento e os cuidados com recém-nascidos no início do século XX.

O incêndio de Dreamland em 1911
Um dos acontecimentos mais dramáticos foi o incêndio que destruiu o parque Dreamland em 27 de maio de 1911. A imprensa da época registrou que seis bebês foram retirados em segurança da instalação de incubadoras.
A pesquisa da Biblioteca Pública do Brooklyn consultou jornais e fotografias do período e identificou o registro do resgate. Depois do incêndio, as crianças foram acolhidas em outra instalação. O Dreamland, por sua vez, não foi reconstruído.
Quantas crianças Martin Couney salvou?
Uma estimativa muito citada afirma que cerca de 8 mil bebês passaram pelas instalações de Couney e aproximadamente 6.500 sobreviveram. São números atribuídos ao próprio Couney, não uma contagem confirmada de modo independente.
A Smithsonian Magazine registra que não foi possível verificar o total exato. Ainda assim, existem documentos de época e relatos pessoais de sobreviventes que comprovam a existência do atendimento e seu impacto sobre diversas famílias.
Duas sobreviventes deixaram seus depoimentos
Lucille Horn: seis meses em uma incubadora
Nascida prematuramente em 1920, Lucille Horn relatou que seu pai a levou de táxi até a instalação em Coney Island depois de receber um prognóstico desfavorável no hospital. Segundo seu testemunho, ela permaneceu ali por cerca de seis meses.
Em 2015, quando tinha 95 anos, Lucille contou essa história à filha Barbara em um depoimento gravado pelo projeto StoryCorps. O relato mostra o caso de uma família, não deve ser tomado como prova de que todos os hospitais agiam da mesma maneira.
Ouça o depoimento de Lucille Horn no StoryCorps (áudio original em inglês).
Beth Allen: nascida antes do tempo em 1941
Beth Allen nasceu em 1941, cerca de três meses antes do previsto, segundo sua entrevista ao Coney Island History Project. Seus pais buscaram a instalação de incubadoras, e ela sobreviveu. Décadas depois, em 2007, Beth compartilhou lembranças transmitidas pela família e falou de sua relação com Couney.
Leia e ouça a entrevista preservada pelo Coney Island History Project.
Martin Couney era médico de verdade?
Couney era amplamente chamado de “doutor”, mas sua formação foi colocada em dúvida. Em 2016, a jornalista Claire Prentice investigou sua trajetória para a Smithsonian Magazine e não encontrou comprovação dos estudos de medicina que ele afirmava ter realizado.
Isso não apaga o trabalho dos profissionais que prestavam assistência às crianças, mas exige precisão ao apresentar Couney: sua atuação histórica é documentada; sua alegada formação médica não foi comprovada pela investigação.
Os hospitais abandonavam todos os bebês prematuros?
Não. Essa afirmação, comum em publicações virais, generaliza uma situação que variava conforme o hospital, a época e os recursos disponíveis. Havia grandes limitações na assistência neonatal, mas também existiam médicos e pesquisadores trabalhando para melhorá-la.
A contribuição das exposições deve ser compreendida nesse contexto: elas ofereceram tratamento especializado, despertaram interesse público e participaram de uma transformação mais ampla dos cuidados aos recém-nascidos.
Quando as incubadoras de Coney Island fecharam?
A exposição mais conhecida permaneceu em atividade no Luna Park até 1943. Nesse intervalo, equipamentos e práticas de cuidado neonatal passaram gradualmente a ser incorporados por hospitais. Couney morreu em 1950.
O legado é complexo: há vidas preservadas por uma equipe dedicada, uma forma de financiamento hoje difícil de imaginar, críticas legítimas à exposição dos bebês e questionamentos sobre a biografia de quem liderou a iniciativa.
Perguntas frequentes
Martin Couney realmente mantinha incubadoras em Coney Island?
Sim. Documentos de 1903 registram incubadoras no Luna Park, e há registros de outra instalação no Dreamland a partir de 1904.
As famílias pagavam pelo tratamento?
Segundo os registros históricos, Couney não cobrava diretamente dos pais: as entradas do público ajudavam a financiar o cuidado.
É verdade que foram salvos 6.500 bebês?
Esse número é uma estimativa atribuída a Couney. Não existe comprovação independente suficiente para tratar o total como definitivo.
Existem fotografias autênticas?
Sim. A Biblioteca Pública do Brooklyn mantém registros específicos de Dreamland, enquanto outras instituições preservam fotos das exposições de incubadoras em diferentes cidades. As imagens deste artigo identificam claramente o local em que foram tiradas.
Fontes consultadas
- Brooklyn Public Library — Infant Incubators at Dreamland (2024)
- Smithsonian Magazine — investigação de Claire Prentice (2016)
- StoryCorps — Lucille Horn e Barbara Horn (2015)
- Coney Island History Project — Beth Allen (2007)
- 99% Invisible — The Infantorium (contexto histórico)
- Oregon State University — fotografia da exposição de Portland, 1905
- University of Washington — exposição de Seattle, 1909
- Missouri History Museum — exposição de St. Louis, 1904
Nota editorial — outubro de 2026: Artigo histórico baseado em documentos de bibliotecas, pesquisas e relatos gravados. Os números de sobreviventes são apresentados como estimativas. As fotografias publicadas são registros autênticos de exposições de incubadoras em Portland (1905), Seattle (1909) e St. Louis (1904), devidamente identificados; não são imagens de Coney Island. Não utilizamos fotografias geradas por IA como provas documentais.
Registro original em áudio
Lucille Horn conta sua história ao StoryCorps. Na gravação, feita décadas depois dos acontecimentos, ela relata como recebeu atendimento quando nasceu prematuramente. O depoimento é em inglês e dura menos de dois minutos.
Ouça a sobrevivente
Lucille Horn e sua filha Barbara • StoryCorps • 1min52s
