Sim, a lula-gigante do Atlântico Norte é real. A espécie Architeuthis dux pode chegar a cerca de 13 metros de comprimento total, contando os dois longos tentáculos usados para capturar presas. Durante séculos, encontros raros com esses animais alimentaram relatos de monstros marinhos. Mas uma história registrada no Canadá, em 1873, ajudou a transformar o mistério em objeto de estudo científico.
Naquele ano, pescadores relataram que uma enorme lula havia reagido contra sua embarcação. O episódio deixou um vestígio físico e chegou às páginas de publicações científicas. Isso torna o caso historicamente relevante — mas não significa que todas as descrições dramáticas do suposto ataque tenham sido comprovadas.
O que aconteceu com os pescadores em 1873?
Em outubro de 1873, nas águas de Conception Bay, ao largo de Great Bell Island, perto de Portugal Cove, em Newfoundland (atual Canadá), pescadores encontraram algo grande flutuando no mar. Conforme a versão documentada à época, ao se aproximarem e tocarem o objeto, perceberam que se tratava de um animal vivo.
Um dos homens, identificado como Theophilus Picot em correspondência da época, relatou que a criatura estendeu apêndices em direção ao barco. Um tentáculo foi cortado e recolhido. O relato costuma ser datado de 26 de outubro de 1873, embora uma carta contemporânea situe o encontro por volta de 25 de outubro.
A fonte mais interessante é uma correspondência de Alexander Murray, datada de novembro daquele ano e publicada em 1874 na revista The American Naturalist. Ele descreveu o tentáculo preservado e transmitiu o depoimento do pescador. A carta pode ser consultada no volume histórico digitalizado (1874), seção Zoology, p. 120–123.
Murray registrou que o fragmento teria medido cerca de 19 pés (aproximadamente 5,8 metros) antes de ser preservado em salmoura; quando ele o examinou, registrou cerca de 17 pés. Já as estimativas sobre o tamanho do animal inteiro eram muito superiores às dimensões confirmadas hoje, razão para tratá-las como estimativas de testemunhas, não medições científicas.
Uma prova física não comprova um ataque deliberado
O tentáculo estudado ajuda a sustentar a identificação de um grande cefalópode. Mas os pormenores do confronto dependem dos relatos registrados por terceiros: não havia filmagem, e versões posteriores divergem sobre quem estava no barco e como o apêndice foi cortado.
A hipótese de reação defensiva de um animal perturbado é plausível, porém não é possível determinar sua intenção. O Smithsonian observa que ataques de lulas-gigantes capazes de afundar barcos, como os representados em histórias de aventura, não são acontecimentos conhecidos pela ciência. Consulte a explicação do Smithsonian sobre as lendas.
A famosa fotografia da lula na banheira é de outro animal
Outra lula-gigante foi recolhida em Logy Bay, em novembro de 1873. O naturalista amador e reverendo Moses Harvey obteve esse exemplar, que acabou fotografado com os braços e tentáculos dispostos sobre uma banheira em sua residência.
É importante não confundir os dois episódios: a fotografia histórica abaixo não mostra a lula do encontro relatado em Portugal Cove. Ela documenta outro exemplar, usado nos estudos que ampliaram o conhecimento científico sobre essas criaturas. O Smithsonian cataloga uma famosa imagem da banheira como de 1874; registros históricos também documentam fotografias do exemplar de Logy Bay em 1873.

O naturalista Addison Emery Verrill, da Universidade Yale, estudou materiais recebidos de Newfoundland, contribuindo para descrições anatômicas mais precisas. O conjunto de registros do século XIX ajudou a substituir especulações sobre monstros por observações sobre um animal verdadeiro.
Qual é o tamanho real de uma lula-gigante?
O Museu Nacional de História Natural do Smithsonian informa que o maior comprimento total documentado por cientistas chegou a aproximadamente 13 metros. Isso inclui o corpo e os tentáculos, que representam boa parte do comprimento do animal.

Por isso, manchetes que afirmam que o corpo de uma lula mede 20 ou 30 metros precisam ser verificadas com cuidado. Um tentáculo pode se esticar, partes do animal podem estar danificadas, e estimativas antigas nem sempre foram confirmadas por medições. Não existe um espécime documentado de 20 metros segundo a referência do Smithsonian; essa dimensão aparece apenas em estimativas indiretas.
A lula-gigante possui oito braços, dois tentáculos de alimentação, bico rígido e olhos que podem se aproximar de 30 centímetros de diâmetro. A grande superfície dos olhos ajuda na percepção de sinais de luz nas profundezas.
Onde vive a lula-gigante do Atlântico Norte?
Apesar do nome do artigo destacar o Atlântico Norte, Architeuthis dux não é exclusiva dessa região. Há registros em diferentes oceanos. O Smithsonian aponta ocorrências nos lados leste e oeste do Atlântico Norte, além de outras regiões, especialmente perto de encostas continentais e de ilhas.
O ambiente de águas profundas dificulta a observação. Pesquisadores investigam o animal em faixas que podem estar a centenas de metros abaixo da superfície. Grande parte do conhecimento histórico veio de exemplares encontrados mortos ou capturados acidentalmente.
A ciência já conseguiu filmar uma lula-gigante viva?
Sim. Em 2006, pesquisadores registraram um exemplar vivo junto à superfície durante uma operação com isca no Japão. Em 2012, uma equipe conseguiu filmar a espécie em seu ambiente natural em profundidade, um marco relatado pelo Smithsonian.
Em 2019, uma expedição apoiada pela NOAA registrou pela primeira vez uma lula-gigante viva em águas dos Estados Unidos, no Golfo do México. No vídeo, o animal se aproxima de uma isca luminosa, estende os tentáculos e recua. Os pesquisadores estimaram que o animal tinha pelo menos 3 a 3,7 metros de comprimento.
Os pesquisadores explicaram que a filmagem mostra uma interação com a isca, não um ataque a seres humanos. A câmera foi projetada para observar discretamente organismos adaptados à escuridão. Confira a publicação oficial da NOAA sobre o registro de 2019.
A lula-gigante deu origem à lenda do Kraken?
O Kraken aparece em narrativas marítimas do norte da Europa como uma criatura gigantesca e ameaçadora. Lulas de grande porte podem ter influenciado representações posteriores desse monstro, mas não há como reduzir toda a origem do mito a uma única espécie ou um único avistamento.
A literatura também ampliou a imagem do monstro. Em Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne, publicado no século XIX, uma criatura com tentáculos protagoniza um confronto dramático. A ficção popularizou cenas que não equivalem a registros científicos de comportamento animal.
Lula-gigante e lula-colossal são a mesma espécie?
Não. A lula-gigante é identificada como Architeuthis dux; a lula-colossal é Mesonychoteuthis hamiltoni. Elas não devem ser apresentadas como o mesmo animal. O tamanho total e a massa corporal também são medidas diferentes, o que torna comparações de ‘maior lula do mundo’ mais complexas do que parecem.
Mitos e fatos sobre a lula-gigante
- Fato: lulas-gigantes existem e são estudadas em museus e centros de pesquisa.
- Fato: a história de 1873 deixou correspondência e material biológico documentados.
- Não comprovado: que o episódio de 1873 foi uma tentativa deliberada de afundar o barco.
- Fato: a espécie já foi filmada viva em águas profundas.
- Não comprovado: vídeos ou ilustrações de monstros atacando navios como evidências de ataques reais.
Perguntas frequentes
A lula-gigante ainda existe?
Sim. Architeuthis dux é uma espécie real e há registros científicos modernos de exemplares e filmagens.
Qual é o maior tamanho confirmado?
O Smithsonian relata cerca de 13 metros de comprimento total para o maior exemplar documentado, incluindo os tentáculos.
Ela é perigosa para barcos e banhistas?
É um grande predador marinho, mas não existem registros científicos confirmados que sustentem histórias de lulas-gigantes afundando barcos. Seu habitat habitual é de águas profundas.
A lula de 1873 foi fotografada?
O tentáculo associado ao relato de Portugal Cove foi fotografado e estudado. A célebre imagem da lula sobre a banheira mostra outro exemplar, recolhido em Logy Bay.
O que essa história revela sobre os mistérios do oceano?
A lula-gigante é um exemplo de como um animal desconhecido pode se transformar em lenda antes que a ciência reúna evidências suficientes para explicá-lo. O episódio de 1873 tem valor histórico, os espécimes são reais e as filmagens modernas ajudam a conhecer melhor sua biologia. Já os ataques a navios permanecem no campo dos relatos não comprovados e da ficção.
Nota editorial — 12 de outubro de 2026: artigo de caráter educativo e evergreen, com base em registros históricos e materiais do Smithsonian, da NOAA e em um documento científico publicado em 1874. Os relatos de testemunhas foram identificados como relatos, sem serem apresentados como ataques confirmados.
Veja o vídeo: uma lula-gigante filmada nas profundezas
Vídeo documental da NOAA — registro de 2019
Assista ao registro científico de uma lula-gigante viva se aproximando de uma isca luminosa no Golfo do México. A página original apresenta o vídeo e explica como a observação foi feita.
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Fontes e registros consultados
- The American Naturalist (1874), volume 8, pp. 120–123 — relato de Alexander Murray (digitalização integral)
- Smithsonian Ocean — Giant Squid: anatomia, pesquisa, histórias e fotografias
- Smithsonian National Museum of Natural History — The Giant Squid
- NOAA Ocean Exploration (2019) — Here Be Monsters: We Filmed a Giant Squid in America’s Backyard
- Wikimedia Commons — fotografia histórica do exemplar de Logy Bay, 1873
- Museums Victoria / Wikimedia Commons — exemplar real em exposição (licença CC BY 4.0)
