Bajau: conheça os “humanos aquáticos” que desenvolveram adaptações para viver no mar

Por Paula Guarini

Mergulhador Bajau no mar, povo conhecido pela tradição de mergulho em apneia no Sudeste Asiático

Imagine passar boa parte do dia entrando e saindo do mar, mergulhar para buscar peixes, polvos e outros alimentos e fazer tudo isso sem cilindro de oxigênio.

Para algumas comunidades Bajau do Sudeste Asiático, essa relação com o oceano não é esporte. Durante gerações, foi uma forma de sobrevivência.

Conhecidos como “nômades do mar”, os Bajau chamaram a atenção de cientistas por suas habilidades de mergulho em apneia. Quando pesquisadores investigaram seus corpos e seu DNA, encontraram algo ainda mais interessante: sinais de que gerações vivendo dessa maneira podem ter deixado marcas mensuráveis na própria biologia dessa população.

Mas até onde vão essas adaptações? Eles realmente conseguem permanecer 13 minutos sem respirar? E por que o baço se tornou uma das peças mais importantes dessa história?

Quem são os Bajau?

Bajau é um nome utilizado para diferentes populações relacionadas, também chamadas de Sama-Bajau, Bajo ou Bajau Laut, dependendo da região.

Essas comunidades estão espalhadas principalmente por áreas costeiras e ilhas da Indonésia, Malásia e Filipinas. Pesquisas genômicas mostram uma história marcada por deslocamentos marítimos, comércio, casamentos com populações locais e formação de comunidades distribuídas por uma enorme área do Sudeste Asiático. Um estudo sobre a história genética dos Bajo está disponível no PubMed Central.

Por isso, descrevê-los simplesmente como “uma tribo” não conta toda a história.

Durante muito tempo, grupos Bajau viveram em barcos-casa e se deslocaram pelo mar em busca de alimento e comércio. Hoje, muitos vivem em vilarejos costeiros ou em casas construídas sobre palafitas, embora a relação com o oceano continue fazendo parte da vida de várias comunidades.

Por que eles ficaram conhecidos como “humanos aquáticos”?

O apelido surgiu principalmente por causa da impressionante familiaridade de alguns mergulhadores Bajau com o oceano.

Eles praticam o chamado mergulho em apneia, no qual a pessoa mergulha prendendo a própria respiração, sem utilizar cilindro de ar comprimido.

Em algumas comunidades, mergulhadores usam equipamentos simples, como máscaras, pesos e lanças para capturar peixes ou procurar polvos, mariscos e pepinos-do-mar.

Um estudo que acompanhou diretamente cinco mergulhadores Bajau nas Filipinas registrou atividades de duas a nove horas por dia. Durante o período de trabalho na água, eles permaneceram submersos, em média, cerca de 60% do tempo. Os mergulhos observados no estudo tinham duração média de 28 segundos e aconteciam principalmente entre cinco e sete metros de profundidade. Os dados podem ser consultados no PubMed.

Isso mostra uma diferença importante entre o trabalho cotidiano observado pelos cientistas e os mergulhos extremos que ficaram famosos na internet.

Os Bajau realmente ficam 13 minutos debaixo d’água?

Essa é provavelmente a informação mais repetida quando se fala sobre eles.

A National Geographic registrou relatos de mergulhadores capazes de permanecer submersos por até 13 minutos e atingir profundidades em torno de 60 metros.

Mas isso precisa ser interpretado corretamente.

Não significa que todo Bajau consiga ficar 13 minutos sem respirar, nem que esse seja o tempo normal dos mergulhos durante a pesca. Trata-se de relato de desempenho excepcional, enquanto os estudos observacionais mostram uma rotina bastante mais variada.

A habilidade realmente impressionante está na combinação de treinamento, repetição dos mergulhos e adaptações fisiológicas e genéticas encontradas pelos pesquisadores.

O segredo pode estar no baço

Em 2018, uma equipe liderada pela pesquisadora Melissa Ilardo publicou na revista científica Cell o estudo Physiological and Genetic Adaptations to Diving in Sea Nomads.

Os pesquisadores utilizaram ultrassom e análises genéticas para comparar membros de uma comunidade Bajau da Indonésia com os Saluan, uma população vizinha que não possui a mesma tradição de mergulho.

O resultado chamou atenção: os Bajau apresentaram baços aproximadamente 50% maiores, em média, que os encontrados no grupo usado para comparação.

Você pode consultar a pesquisa científica original publicada na Cell e o registro do estudo no PubMed.

Mas o que o baço tem a ver com ficar sem respirar?

Quando uma pessoa mergulha e prende a respiração, o organismo desencadeia uma série de reações conhecidas como resposta de mergulho dos mamíferos.

O ritmo cardíaco diminui, alguns vasos sanguíneos se contraem e o organismo passa a priorizar o fornecimento de oxigênio para órgãos essenciais.

O baço também participa dessa resposta. Ele funciona, entre outras coisas, como um reservatório de glóbulos vermelhos. Durante a apneia, sua contração pode liberar mais dessas células na circulação.

Como os glóbulos vermelhos transportam oxigênio, um baço maior pode representar uma reserva maior disponível durante o mergulho. Não é um “tanque de oxigênio” e não permite respirar debaixo d’água, mas pode ajudar o organismo a lidar com períodos temporários de baixa disponibilidade de oxigênio.

E não parece ser apenas resultado de treinamento

Essa foi uma das partes mais interessantes do estudo.

Se o aumento do baço fosse simplesmente consequência de mergulhar repetidamente durante anos, seria esperado encontrar baços maiores principalmente entre os Bajau que mergulhavam.

Mas os pesquisadores observaram a característica também em Bajau que não eram mergulhadores. Dentro do próprio grupo Bajau, a pesquisa não encontrou diferença estatisticamente significativa no tamanho do baço entre mergulhadores e não mergulhadores.

Isso levou os cientistas a procurar uma explicação genética.

O DNA dos Bajau também trouxe uma surpresa

Ao analisar os genomas, os pesquisadores encontraram sinais de seleção natural em regiões relacionadas a funções importantes para o mergulho.

Uma delas envolve o gene PDE10A. Variantes próximas desse gene estão relacionadas à regulação de hormônios da tireoide, e experiências anteriores em animais indicavam uma relação entre esses hormônios e o tamanho do baço.

A equipe também encontrou sinais de seleção envolvendo BDKRB2, gene associado à regulação dos vasos sanguíneos e à resposta do organismo durante o mergulho.

Os autores concluíram que a seleção natural provavelmente contribuiu para características que favorecem a tolerância à falta temporária de oxigênio.

Isso não significa que exista um único “gene do mergulho”, nem que a genética explique sozinha as capacidades dos Bajau. Treinamento, experiência, técnica e cultura continuam tendo papel importante.

Então os Bajau evoluíram para viver debaixo d’água?

Não no sentido que a expressão pode sugerir.

Eles continuam sendo seres humanos com a mesma fisiologia básica de qualquer outra população. O que a pesquisa encontrou é algo muito mais interessante do ponto de vista científico: evidências de adaptação humana relativamente recente a um ambiente extremo.

A evolução humana não terminou em algum momento distante da pré-história. Quando determinadas características hereditárias oferecem vantagens ao longo de muitas gerações, a frequência dessas variantes pode aumentar dentro de uma população.

Há quanto tempo eles vivem assim?

Pesquisas linguísticas, registros históricos e estudos populacionais indicam que populações Bajau mantêm uma forte relação com o ambiente marítimo há séculos e provavelmente há cerca de mil anos ou mais.

Estudos genômicos também mostram que essas populações navegaram grandes distâncias pelo arquipélago e se misturaram geneticamente com grupos encontrados pelo caminho.

O mar, portanto, não é apenas o local onde trabalham. Ele participou da história, da cultura e até da evolução biológica dessas comunidades.

O modo de vida tradicional está mudando

Apesar da imagem dos “nômades do mar”, muitos Bajau já não vivem permanentemente em barcos.

Há décadas ocorre um processo de sedentarização, com comunidades passando a morar em vilas costeiras e casas sobre palafitas. Ainda assim, a tradição marítima permanece viva em várias regiões.

Veja de perto como vivem os Bajau

Para quem ficou curioso para conhecer melhor esse povo e visualizar sua relação tão particular com o oceano, o vídeo abaixo funciona como referência complementar ao conteúdo deste artigo.

As explicações científicas deste artigo, incluindo as pesquisas sobre o tamanho do baço e as possíveis adaptações genéticas associadas ao mergulho, foram conferidas separadamente nos estudos científicos indicados ao longo do texto.

O que essa história ensina sobre separar curiosidade de evidência

Ao pesquisar os Bajau, uma coisa me chamou atenção: é muito fácil transformar uma história científica fascinante em uma afirmação exagerada quando diferentes tipos de evidência são misturados.

Neste caso, existem pelo menos três camadas distintas. Há relatos de desempenhos extremos, como permanecer muitos minutos em apneia; há estudos observacionais sobre a rotina real de mergulhadores Bajau; e há pesquisas genéticas e fisiológicas que encontraram características populacionais associadas à adaptação ao mergulho.

Essas três coisas são verdadeiras dentro de seus próprios limites, mas não significam a mesma coisa. Um relato excepcional não descreve toda a população, e uma adaptação genética não transforma os Bajau em seres humanos biologicamente “aquáticos”.

Por isso, o apelido “humanos aquáticos” funciona como uma forma de despertar curiosidade, mas precisa ser tratado com cuidado. Os Bajau são populações humanas diversas, com história, cultura e modos de vida próprios — e não apenas um fenômeno biológico.

Para mim, essa é a parte mais interessante da história: a realidade continua impressionante mesmo depois que o exagero é retirado. A ciência não precisa transformar os Bajau em mito para mostrar algo extraordinário sobre adaptação humana.


Fontes consultadas

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