La Rinconada: como é viver na cidade mais alta do mundo, a 5.100 metros de altitude

Por Paula Guarini

La Rinconada, no sul do Peru, é conhecida como a cidade permanentemente habitada mais alta do mundo. Construída entre cerca de 5.100 e 5.300 metros de altitude, ela existe em um ponto dos Andes onde a pressão atmosférica é cerca de 47% menor do que ao nível do mar. Mesmo assim, dezenas de milhares de pessoas vivem e trabalham ali, principalmente em torno da mineração de ouro.

O que torna La Rinconada tão impressionante não é apenas a altitude. É a combinação de frio, hipóxia, urbanização precária, mineração e adaptação humana. Pesquisadores vêm estudando a população local justamente porque ela desafia aquilo que, durante muito tempo, foi considerado próximo do limite para uma vida humana permanente em grandes altitudes.

Resposta rápida: La Rinconada fica na região de Puno, no Peru, a aproximadamente 5.100–5.300 metros acima do nível do mar. Estudos científicos estimam entre 40 mil e 60 mil moradores permanentes. A cidade cresceu em torno da mineração de ouro e hoje é um dos lugares mais extremos do planeta para se viver.

Onde fica La Rinconada?

La Rinconada fica no distrito de Ananea, na província de San Antonio de Putina, região de Puno, perto da fronteira entre Peru e Bolívia.

A cidade se espalha aos pés de montanhas andinas e de áreas glaciais, em uma altitude próxima de 5.100 metros. O programa científico Expedition 5300, apoiado por instituições peruanas e francesas, descreve La Rinconada como a cidade peruana mais alta do mundo, situada entre 5.100 e 5.300 metros.

Vista real de La Rinconada, no Peru, com construções da cidade e montanhas nevadas ao fundo
La Rinconada, na região de Puno, com o ambiente glacial dos Andes ao fundo. Foto: Hildegard Willer / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

Por que viver a 5.100 metros é tão difícil?

Em grandes altitudes, a principal dificuldade é a hipóxia: a redução da disponibilidade de oxigênio causada pela menor pressão atmosférica. Não significa que o ar “deixe de ter oxigênio”, mas que cada respiração entrega menos oxigênio ao organismo.

Em La Rinconada, a pressão barométrica é aproximadamente 47% menor do que ao nível do mar, segundo estudos realizados com moradores da cidade. Para alguém que chega de uma região baixa, até atividades simples podem provocar falta de ar, dor de cabeça, cansaço intenso e dificuldade para dormir.

Para quem vive ali há anos, o corpo tenta se adaptar. Uma das respostas é produzir mais glóbulos vermelhos e mais hemoglobina para transportar oxigênio. Só que essa adaptação também pode cobrar um preço.

O sangue dos moradores realmente muda?

Sim. Estudos da Expedition 5300 encontraram concentrações muito elevadas de hemoglobina entre moradores de La Rinconada. Em pessoas com doença crônica da montanha, os valores eram ainda maiores.

Isso ajuda o organismo a transportar oxigênio, mas também pode aumentar a viscosidade do sangue. Os pesquisadores observaram alterações cardiovasculares e pulmonares que tendem a ser mais acentuadas em pessoas com doença crônica da montanha.

Outro dado chama atenção: avaliações noturnas encontraram uma saturação mediana de oxigênio de aproximadamente 79%. Ao nível do mar, um valor assim normalmente seria motivo de preocupação médica. Em La Rinconada, porém, ele aparece em pessoas que vivem permanentemente naquele ambiente extremo.

Então os moradores estão totalmente adaptados?

Não exatamente. Esse é um dos aspectos mais interessantes de La Rinconada.

Os moradores conseguem viver e trabalhar em uma altitude extraordinária, mas isso não significa ausência de consequências. Estudos encontraram casos de eritrocitose excessiva — produção exagerada de glóbulos vermelhos — e de doença crônica da montanha.

Uma pesquisa científica estimou prevalência de doença crônica da montanha em cerca de 14% entre moradores analisados. Outros estudos apontam dores de cabeça frequentes, hipóxia acentuada e alterações na regulação cardiovascular.

Por isso, La Rinconada é estudada como uma espécie de “laboratório natural” da adaptação humana. O Concytec do Peru destaca que a cidade está próxima do que pode ser o limite máximo de altitude para ocupação humana permanente sem grandes impactos à saúde.

Quantas pessoas vivem em La Rinconada?

É difícil estabelecer um número exato porque a região tem intensa migração ligada à mineração. Estudos científicos recentes trabalham com uma estimativa de aproximadamente 40 mil a 60 mil moradores permanentes.

O crescimento foi impulsionado principalmente pela busca por ouro. A população aumentou rapidamente ao longo das últimas décadas, enquanto a infraestrutura urbana não acompanhou o mesmo ritmo.

O ouro explica a existência da cidade

La Rinconada não cresceu em uma altitude tão extrema por acaso. Sua economia está profundamente ligada à mineração de ouro.

A atividade atrai trabalhadores de diferentes partes dos Andes em busca de renda. Ao redor das minas surgiu uma cidade com comércio, moradias, transporte e serviços que sustentam uma população muito maior do que seria esperado para um ambiente tão hostil.

Foto real de La Rinconada mostrando o assentamento urbano aos pés de montanhas cobertas de neve
A ocupação urbana de La Rinconada cresceu junto às áreas de mineração de ouro, em um terreno extremamente elevado e pouco favorável à urbanização. Foto: IJISCAY / Wikimedia Commons — CC0.

Mercúrio: o outro risco ligado ao ouro

A mineração artesanal e de pequena escala pode utilizar mercúrio para separar o ouro de outros materiais. A Organização Mundial da Saúde considera o mercúrio uma das substâncias químicas de maior preocupação para a saúde pública.

O risco ocorre principalmente quando o mercúrio é aquecido durante o processamento do ouro, liberando vapores tóxicos. A exposição pode afetar o sistema nervoso, os rins, os pulmões e outros órgãos.

Pesquisas realizadas no sul do Peru já documentaram exposição ocupacional ao mercúrio em comunidades de mineração informal. Um estudo ambiental também encontrou níveis elevados de mercúrio em água, solo e sedimentos próximos ao complexo de mineração de La Rinconada.

É importante separar os fatores: a falta de oxigênio está ligada à altitude; o mercúrio está ligado ao processo de mineração. Os dois podem coexistir, mas não são o mesmo problema.

Como é a estrutura da cidade?

Imagens de La Rinconada mostram uma ocupação muito densa, com construções simples espalhadas pelas encostas. O crescimento rápido associado à mineração produziu dificuldades de infraestrutura, saneamento e organização urbana.

Uma imagem de satélite do programa europeu Copernicus Sentinel-2 mostra claramente a cidade comprimida entre montanhas, áreas de mineração e terreno de alta altitude.

Imagem de satélite de La Rinconada, Peru, mostrando a cidade e o relevo montanhoso ao redor
La Rinconada vista pelo satélite Copernicus Sentinel-2. A imagem evidencia a concentração urbana em meio ao relevo de alta montanha. Fonte: Copernicus Sentinel data / Wikimedia Commons.

Por que as pessoas continuam vivendo ali?

A resposta mais evidente é econômica: ouro.

Para muitos trabalhadores, La Rinconada representa uma oportunidade de renda que pode não existir em suas cidades de origem. É um exemplo de como uma atividade econômica pode criar uma cidade em um lugar que, pelas condições naturais, dificilmente seria escolhido para um grande assentamento.

Mas reduzir a vida local apenas ao ouro seria simplificar demais. Depois de décadas de crescimento, famílias, comércio, relações sociais e rotinas se formaram ali. Para muitos moradores, La Rinconada deixou de ser apenas um local de trabalho e passou a ser casa.

O que La Rinconada ensina sobre os limites do corpo humano?

Talvez essa seja a parte mais fascinante.

La Rinconada está próxima do limite conhecido de tolerância humana para habitação permanente em altitude extrema. A cidade mostra que seres humanos conseguem viver acima dos 5 mil metros, mas também revela o custo fisiológico dessa adaptação.

Na prática, o corpo não “vence” a falta de oxigênio. Ele reorganiza seu funcionamento para sobreviver naquele ambiente. Aumenta a produção de hemoglobina, altera a circulação e modifica diferentes respostas fisiológicas.

É justamente por isso que a cidade continua atraindo cientistas: entender seus moradores pode ajudar a estudar hipóxia, doenças cardiovasculares, sono, circulação cerebral e adaptação humana em condições extremas.

La Rinconada é realmente a cidade mais alta do mundo?

Ela é amplamente descrita por estudos científicos e instituições peruanas como a cidade ou assentamento urbano permanentemente habitado mais alto do mundo.

Existem povoados, bases e ocupações humanas em altitudes extremas em outras regiões, mas La Rinconada se destaca por reunir uma população permanente de dezenas de milhares de pessoas acima dos 5.100 metros.

Perguntas frequentes sobre La Rinconada

Qual é a altitude de La Rinconada?

A cidade fica aproximadamente entre 5.100 e 5.300 metros acima do nível do mar.

Quantas pessoas vivem em La Rinconada?

Estudos científicos recentes trabalham com estimativas entre 40 mil e 60 mil moradores permanentes. O número exato varia porque a mineração provoca intensa migração.

Por que existe uma cidade tão alta?

Principalmente por causa da mineração de ouro, que atraiu trabalhadores e estimulou o crescimento do comércio e das moradias ao redor das minas.

É difícil respirar em La Rinconada?

Sim. A pressão atmosférica é muito menor do que ao nível do mar, reduzindo a quantidade de oxigênio disponível a cada respiração. Pessoas não aclimatadas podem sentir sintomas rapidamente.

Os moradores se acostumam com a falta de oxigênio?

O corpo desenvolve adaptações, mas elas não eliminam os riscos. Parte da população apresenta eritrocitose excessiva e doença crônica da montanha.

Existe risco de contaminação por mercúrio?

O mercúrio é utilizado em parte da mineração artesanal de ouro e estudos ambientais já documentaram contaminação na região. O risco é diferente do provocado pela altitude e está ligado ao processamento do minério.


Nota editorial: este artigo foi preparado com informações disponíveis até setembro de 2026 e cruza dados de pesquisas científicas, instituições públicas e organismos internacionais. O vídeo abaixo foi utilizado como referência narrativa; os números e afirmações factuais foram verificados separadamente em fontes especializadas.

Vídeo de referência

Fontes consultadas

Você também pode gostar

Quer acompanhar os próximos conteúdos?

Receba por e-mail novos artigos sobre dinheiro, finanças e decisões que podem afetar o seu bolso.

Assine gratuitamente o blog e fique por dentro das próximas publicações.

Você pode cancelar a assinatura quando quiser.

Descubra mais sobre Paula Guarini

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo