Por que grandes empresas estão fugindo do Brasil? A verdade por trás desse movimento

Por Paula Guarini

Imagem ilustrativa sobre empresas brasileiras e a fronteira Brasil-Paraguai, com pista vazia no lado do Brasil e fila de caminhões no lado do Paraguai.

Não há evidência oficial de uma fuga generalizada de grandes empresas do Brasil. O que existe é um movimento mais complexo: algumas companhias encerram ou reduzem operações, enquanto outras investem no Paraguai e outras continuam ampliando produção no próprio Brasil.

A associação entre fechamentos de fábricas brasileiras e o crescimento industrial do Paraguai ganhou força nas redes sociais, mas os casos analisados mostram situações diferentes entre si.

Há empresas brasileiras investindo e instalando novas operações no Paraguai. Ao mesmo tempo, há companhias que retomaram a produção no Brasil e outras que seguem ampliando fábricas por aqui. Por isso, é preciso separar fechamento de fábrica, expansão internacional, novos projetos no exterior e novos investimentos no país.

O que está atraindo investimentos para o Paraguai?

Um dos principais atrativos é a possibilidade de produzir no Paraguai com regras específicas para operações voltadas à exportação, por meio do chamado Regime de Maquila.

Em termos simples, a maquila permite que empresas instalem operações produtivas ou de serviços no país dentro de um regime especial. Entre os incentivos está o Tributo Único de Maquila de 1%, calculado sobre o valor agregado nacional ou sobre o valor da fatura de exportação, prevalecendo o maior.

A legislação atual é a Lei nº 7.547/2025, regulamentada pelo Decreto nº 5.714/2026. Segundo o Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, o regime também prevê benefícios aduaneiros e outras condições específicas para as empresas enquadradas no programa.

Isso não significa, porém, que uma empresa instalada no Paraguai tenha uma carga tributária total de apenas 1%. O percentual se refere ao tributo específico da maquila e segue as regras e bases de cálculo previstas na legislação.

A maquila está crescendo — e os números oficiais mostram isso

De janeiro a agosto de 2026, as indústrias enquadradas no regime de maquila exportaram US$ 1,01 bilhão, alta de 26% em relação aos US$ 801 milhões registrados no mesmo período de 2025, segundo o Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai.

O mesmo levantamento informa que o setor estava associado a cerca de 40 mil postos de trabalho. Também mostra que 77% das exportações das maquiladoras tiveram como destino países do Mercosul, com Brasil e Argentina como principais mercados.

Ou seja: o crescimento da maquila não é apenas uma narrativa das redes sociais. Existe expansão produtiva e exportadora documentada pelo próprio governo paraguaio.

A diferença fica mais clara quando comparamos o mesmo período dos dois anos: entre janeiro e agosto, as exportações passaram de US$ 801 milhões em 2025 para US$ 1,01 bilhão em 2026.

Gráfico de barras comparando as exportações do regime de maquila no Paraguai entre janeiro e agosto de 2025 e janeiro e agosto de 2026.
Exportações do regime de maquila no Paraguai no mesmo período de 2025 e 2026. Fonte: Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai (MIC).

Há também sinais concretos de interesse de empresários brasileiros. Em fevereiro de 2026, uma delegação de 10 empresários industriais da Bahia visitou o Paraguai para conhecer o ambiente de negócios e avaliar oportunidades de investimento, segundo registro oficial do Ministério da Indústria e Comércio paraguaio.

Esse tipo de movimento comprova interesse em novos projetos no país vizinho, mas não significa automaticamente que essas empresas estejam fechando operações no Brasil.

Grupo Dass: um exemplo concreto no Paraguai

Um caso recente aparece no setor têxtil. Em março de 2026, o governo paraguaio anunciou uma aliança entre o Grupo Texcin e o Grupo Dass.

Segundo o Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, o projeto prevê investimento de US$ 40 milhões e mais de 600 novos empregos. O órgão informou ainda que as primeiras peças da Fila ligadas à operação já estavam sendo produzidas no país.

Há um cuidado importante aqui: os US$ 40 milhões e os mais de 600 empregos aparecem na fonte como projeções do projeto. E o comunicado não afirma que a iniciativa represente o encerramento das atividades do grupo no Brasil.

Portanto, o caso demonstra investimento brasileiro no Paraguai, mas não serve, sozinho, como prova de uma empresa “fugindo do Brasil”.

Ford, Audi e BYD mostram por que cada caso precisa ser analisado separadamente

Ford: a fabricação realmente foi encerrada

Em janeiro de 2021, a Ford anunciou o encerramento de suas operações de manufatura no Brasil. As fábricas de Camaçari, na Bahia, Taubaté, em São Paulo, e da Troller em Horizonte, no Ceará, tiveram a produção encerrada ao longo daquele ano.

Mas atribuir a decisão exclusivamente aos impostos brasileiros não corresponde ao que a própria companhia informou. No comunicado oficial da Ford, a empresa citou capacidade ociosa persistente, redução das vendas e anos de perdas significativas, agravados pelos efeitos da pandemia.

A companhia também informou que manteria no país sua sede administrativa da América do Sul, o Centro de Desenvolvimento de Produto, o Campo de Provas e atividades comerciais. Portanto, a descrição mais precisa é: a Ford encerrou a fabricação de veículos no Brasil, mas não encerrou toda a sua presença no país.

Audi: a produção foi retomada

A Audi mostra o risco de transformar uma interrupção em uma “saída definitiva”. A própria montadora informa que reinaugurou em junho de 2022 sua fábrica de São José dos Pinhais, no Paraná, depois de um investimento de R$ 100 milhões.

A unidade passou a produzir Q3 e Q3 Sportback. Por isso, apresentar atualmente a Audi apenas como uma empresa que abandonou a fabricação brasileira seria incompleto.

BYD: investimento industrial em Camaçari

Camaçari oferece um contraponto interessante. A Ford deixou de fabricar veículos na cidade, mas posteriormente a BYD instalou ali um grande complexo industrial.

Em setembro de 2026, a BYD informou que a operação havia superado 8 mil colaboradores diretos e anunciou a antecipação de 1.500 contratações para preparar o terceiro turno de produção. Naquele momento, cerca de 500 dessas admissões já haviam sido realizadas.

O exemplo não apaga o impacto provocado pelo fechamento da Ford. Ele mostra outra coisa: o movimento industrial não ocorre em uma única direção. Algumas companhias reduzem ou encerram operações, enquanto outras ampliam investimentos no Brasil.

E o ambiente econômico brasileiro?

Custos financeiros, sistema tributário, infraestrutura, logística, produtividade e previsibilidade das regras entram nas decisões de investimento. Em 2026, dois elementos ajudam a entender o contexto brasileiro: os juros ainda elevados e a transição da reforma tributária.

Segundo a Receita Federal, 2026 é o ano de teste da CBS e do IBS, com alíquotas de referência de 0,9% e 0,1%. A transição continuará nos próximos anos e a vigência integral do novo modelo está prevista para 2033.

Na política monetária, o Banco Central reduziu a Selic para 13,75% ao ano a partir de 17 de setembro de 2026 e afirmou que os indicadores apontavam uma moderação gradual da atividade econômica.

O IBGE mostrou que o PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026 frente ao trimestre anterior, depois de uma alta de 1,1% no primeiro trimestre.

Minha análise: a disputa não é apenas por empresas, mas pelo próximo investimento

Na minha leitura, o ponto mais importante dessa discussão não é tentar provar uma “fuga” generalizada de empresas do Brasil — os dados analisados não sustentam isso. O que aparece com mais clareza é uma disputa por novos investimentos.

Quando uma empresa decide onde instalar uma fábrica, ampliar uma linha de produção ou atender novos mercados, ela compara tributação, custos, logística, mão de obra, infraestrutura, financiamento e previsibilidade das regras. Nesse cenário, o avanço da maquila mostra que o Paraguai está buscando transformar parte dessas condições em novos projetos industriais.

Isso não significa que o Brasil tenha deixado de ser atrativo. Os próprios casos da Audi e da BYD mostram que também há retomadas e expansão industrial por aqui. Mas significa que o Brasil não disputa investimentos sozinho — e cada decisão empresarial pode movimentar empregos, fornecedores, tecnologia, exportações e arrecadação no país escolhido.

Por isso, talvez a pergunta mais útil não seja quantas empresas estão deixando o Brasil, mas o que o país precisa oferecer para continuar sendo escolhido quando uma companhia decide onde fará seu próximo investimento.

O que os dados realmente mostram

Há empresas brasileiras investindo no Paraguai e há projetos industriais crescendo sob o regime de maquila. Também houve grandes fechamentos de fábricas no Brasil, como o da Ford.

Ao mesmo tempo, a Audi retomou a produção nacional e a BYD está ampliando uma operação industrial de grande porte em Camaçari.

Os casos analisados mostram uma disputa por investimentos, não um movimento único de abandono do Brasil.

Para quem acompanha a economia brasileira, o avanço da maquila paraguaia merece atenção justamente por isso. Empresas comparam tributação, energia, mão de obra, logística, financiamento, infraestrutura, mercado consumidor e estabilidade das regras antes de decidir onde colocar o próximo investimento.

E essa disputa envolve muito mais do que a sede de uma empresa: envolve empregos, fornecedores, tecnologia, exportações e desenvolvimento econômico.

E o que isso tem a ver com a sua vida financeira?

Mudanças na economia, no mercado de trabalho e nas decisões de investimento das empresas podem afetar emprego, renda e custos ao longo do tempo. Por isso, acompanhar o cenário econômico é importante — mas organizar a própria vida financeira também é uma forma de se preparar melhor para períodos de mudança.

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Perguntas frequentes

Grandes empresas estão realmente saindo do Brasil?

Algumas encerraram ou reduziram operações brasileiras, enquanto outras mantêm ou ampliam investimentos no país. As fontes oficiais analisadas não sustentam uma saída generalizada de grandes empresas.

Por que o Paraguai está atraindo investidores brasileiros?

O país oferece regimes específicos voltados à produção para exportação, como a maquila, e promove vantagens competitivas para determinados projetos. A decisão de investir, porém, depende de vários fatores, como custos, logística, mercado e estratégia empresarial.

O que significa o imposto de 1% da maquila?

É o Tributo Único de Maquila. Pela regra atual, ele corresponde a 1% sobre o valor agregado nacional ou sobre o valor da fatura de exportação, prevalecendo o maior. Não significa que qualquer empresa no Paraguai tenha uma carga tributária total de apenas 1%.

A Ford saiu completamente do Brasil?

Não. A empresa encerrou a fabricação de veículos no país em 2021, mas manteve outras estruturas e atividades brasileiras.

O Brasil continua recebendo investimentos industriais?

Sim. A expansão da BYD em Camaçari e a retomada da produção da Audi no Paraná são exemplos citados neste artigo.

Vídeo de referência

O vídeo abaixo foi o ponto de partida para esta investigação. As afirmações apresentadas nele foram conferidas separadamente e, quando necessário, corrigidas ou contextualizadas com fontes oficiais.

Nota editorial — atualizada em outubro de 2026: este conteúdo foi revisado com base em fontes oficiais do Banco Central, IBGE, Receita Federal, Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai e comunicados das próprias empresas citadas. A imagem destacada é uma ilustração criada por inteligência artificial e não retrata uma fronteira ou operação empresarial específica. Quando não foi localizada comprovação oficial suficiente para uma afirmação, ela não foi apresentada como fato.

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