Fim das bets pode prejudicar a economia brasileira? Veja quem perde — e quem pode ganhar

Por Paula Guarini

Fim das bets no Brasil e impacto na economia, no futebol, na publicidade e no orçamento das famílias

Sim, o fim das bets pode causar perdas econômicas em setores como arrecadação, futebol, publicidade e criação de conteúdo. Mas o impacto final para a economia brasileira dependerá de para onde irá o dinheiro que antes era apostado: consumo, pagamento de dívidas, poupança ou plataformas clandestinas.

A proibição das bets no Brasil abriu uma pergunta que vai muito além de quem costumava apostar: o fechamento desse mercado pode trazer prejuízos para a economia brasileira?

A resposta não cabe simplesmente em “sim” ou “não”. A retirada das casas de apostas tende a provocar perdas imediatas de receitas em áreas como arrecadação tributária, futebol, publicidade, mídia e negócios ligados ao setor. Ao mesmo tempo, parte do dinheiro antes destinada às apostas pode voltar para o consumo, pagamento de dívidas e poupança das famílias.

O que mudou com as bets no Brasil?

Em 25 de setembro de 2026, o governo federal publicou a Medida Provisória nº 1.394, proibindo a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no território brasileiro. A medida alcança apostas esportivas e jogos online. Fonte: Governo Federal.

A medida provisória produz efeitos imediatos, mas ainda depende de análise do Congresso Nacional dentro do prazo constitucional. Desde a publicação, novos aportes em contas de apostas ficaram proibidos. O cronograma oficial permite o resgate voluntário de saldos até as 23h59 de 5 de outubro e prevê o bloqueio dos sites e aplicativos a partir de 6 de outubro. Por isso, o cenário regulatório ainda pode sofrer mudanças conforme a tramitação da MP. Fonte: Ministério da Justiça.

Quanto dinheiro as bets movimentavam no Brasil?

Dados apresentados pelo Tribunal de Contas da União mostram que, apenas no primeiro semestre de 2025, as empresas autorizadas registraram cerca de R$ 17,4 bilhões em receita bruta. No mesmo período, 17,7 milhões de brasileiros fizeram apostas em plataformas autorizadas, com gasto efetivo médio aproximado de R$ 164 por mês por apostador. Fonte: TCU.

Quanto o governo arrecadava com as bets?

No primeiro semestre de 2025, o mercado regulado gerou aproximadamente R$ 3,8 bilhões em tributos federais, além de R$ 2,14 bilhões em destinações sociais, segundo o TCU. Isso deixa claro que existe uma receita pública diretamente afetada pela saída do setor.

As empresas também estavam sujeitas a tributos como PIS/Cofins, ISS, IRPJ e CSLL, além das destinações previstas na legislação. Para receber autorização federal, uma empresa precisava pagar R$ 30 milhões de outorga, com validade de cinco anos e autorização para operar até três marcas. Fonte: Ministério da Fazenda.

Futebol pode perder mais de R$ 1 bilhão em patrocínios?

O futebol provavelmente será uma das áreas em que a mudança ficará mais visível. Em 2025, as bets investiram aproximadamente R$ 1,03 bilhão em patrocínios aos clubes da Série A, segundo levantamento da consultoria Convocados divulgado pela Folha de S.Paulo. Fonte: Folha de S.Paulo.

O valor representou crescimento de cerca de 66% em comparação com 2024. Apesar do tamanho do número, os R$ 1,03 bilhão equivaliam a aproximadamente 7,2% da receita total dos clubes da elite naquele ano. Portanto, a saída das bets cria um buraco relevante para alguns clubes, mas não significa que toda essa parcela da receita do futebol brasileiro desaparecerá automaticamente.

TV, sites, influenciadores e YouTube também podem sentir o impacto

O dinheiro das bets não circulava apenas no futebol. Casas de apostas se tornaram grandes anunciantes em transmissões esportivas, portais, redes sociais, podcasts e canais de criadores de conteúdo.

Para quem construiu grande parte da receita em torno de um único patrocinador ou setor, a mudança pode ser especialmente significativa. Contratos podem ser rescindidos ou deixar de ser renovados, enquanto criadores e veículos precisam buscar novas fontes de receita. O tamanho desse impacto varia conforme a dependência de cada negócio em relação às bets.

A verba publicitária desaparece ou muda de lugar?

Quando as bets deixam de anunciar, a verba específica daquele setor sai do mercado. O espaço publicitário, porém, continua disponível: clubes, emissoras, sites e criadores podem buscar anunciantes de outros segmentos. Isso não garante que a mesma quantidade de dinheiro será substituída, nem que a reposição ocorrerá rapidamente. Parte da receita pode migrar para outros anunciantes e parte pode simplesmente deixar de existir.

Em resumo: o fechamento das bets retira dinheiro de alguns setores, mas isso não significa automaticamente uma perda equivalente para a economia. Parte dos recursos pode simplesmente mudar de destino.

Quanto as famílias perderam com bets em 2025?

O Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz) estimou em aproximadamente R$ 62,5 bilhões as perdas líquidas das famílias com bets em 2025. O cálculo representa a diferença estimada entre recursos enviados às plataformas e valores devolvidos em prêmios.

O boletim utilizou estatísticas de pagamentos do Banco Central e analisou a evolução das transferências entre outubro de 2024 e março de 2026. Para 2025, estimou cerca de R$ 350,97 bilhões em transferências via Pix relacionadas ao mercado e R$ 62,5 bilhões de saída líquida de recursos das famílias. Esses números não são equivalentes: o primeiro mede movimentação financeira; o segundo é uma estimativa de perda líquida. Fonte: Agência Brasil.

Se a pessoa deixar de apostar, o dinheiro desaparece da economia?

Não necessariamente. Imagine alguém que destinava R$ 300 por mês às apostas. Sem as bets, esse dinheiro pode ir para supermercado, pagamento de dívidas, lazer ou formação de reserva. Nesse caso, o dinheiro não desaparece: ele muda de destino.

Para onde está indo o seu dinheiro?

Organizar o orçamento não significa apenas gastar menos. Significa entender para onde seu dinheiro está indo e decidir conscientemente quais prioridades devem receber seus recursos.

Pagar dívidas também produz efeito econômico

Se alguém deixa de apostar e utiliza o valor para pagar dívidas, isso também altera a situação financeira da família. Menores despesas com juros podem liberar renda futura para consumo, reserva ou investimento.

E qual era o efeito das bets sobre consumo e atividade econômica?

Uma pesquisa do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da FEA/USP, divulgada em setembro de 2026, estimou que as apostas teriam retirado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica em 2025, o equivalente a 0,9% a 1,1% do PIB, principalmente pela redução do consumo das famílias. O estudo também estimou perda de arrecadação indireta entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões. Fonte: Agência Brasil / pesquisa Made-FEA/USP.

Esses valores são estimativas de um estudo econômico, não uma medição contábil direta. Ainda assim, eles acrescentam um ponto central ao debate: a arrecadação gerada pelas bets precisa ser analisada junto com possíveis efeitos sobre consumo, endividamento e atividade econômica. Por isso, comparar apenas “impostos arrecadados” com “faturamento perdido pelas bets” não é suficiente para medir o efeito líquido sobre o país.

O custo social das apostas também precisa entrar nessa conta

O estudo A Saúde dos Brasileiros em Jogo, realizado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e parceiros, estimou em R$ 38,8 bilhões por ano os custos econômicos e sociais associados às apostas e jogos de azar no Brasil.

Segundo o estudo, cerca de R$ 30,6 bilhões estariam relacionados à saúde. É importante interpretar esse dado corretamente: os R$ 38,8 bilhões não representam uma despesa direta retirada dos cofres públicos, mas uma estimativa econômica que procura atribuir valor financeiro a diferentes danos sociais, diretos e indiretos. Fonte: Agência Brasil.

O risco do mercado clandestino

Existe uma variável capaz de alterar bastante esse cenário: e se as pessoas continuarem apostando em plataformas ilegais?

Em 27 de setembro de 2026, uma força-tarefa dos ministérios da Justiça e da Fazenda informou a retirada do ar de 506 sites com indícios de oferta irregular de apostas. No mesmo período, também foram identificados canais e grupos em aplicativos de mensagem associados à divulgação de apostas ilegais. Fonte: Ministério da Justiça.

Então o fim das bets prejudica a economia brasileira?

Alguns setores tendem a sofrer perdas econômicas claras no curto prazo. Enquanto a proibição estiver em vigor, deixa de existir a arrecadação futura associada à operação regular das bets; clubes, veículos, criadores e fornecedores também precisam substituir receitas que dependiam desse mercado. A intensidade do impacto varia de setor para setor.

Mas isso não significa que todo o dinheiro anteriormente movimentado pelas apostas desaparecerá da economia. Uma parte pode voltar para comércio, serviços, pagamento de dívidas, poupança e outras atividades.

Por outro lado, se uma parcela significativa dos apostadores migrar para plataformas clandestinas, parte dessa possível redistribuição pode não acontecer. O resultado final dependerá principalmente de quanto dinheiro deixará efetivamente de ser apostado, para onde ele será redirecionado e quanto do antigo mercado regulado migrará para operações ilegais.

O dinheiro não simplesmente desaparece. O que muda é quem recebe esse dinheiro — e para onde ele vai.

Perguntas frequentes

As bets foram realmente proibidas no Brasil?

Sim. A Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro de 2026, proibiu exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa no território nacional. A MP tem efeito imediato, mas ainda precisa passar pelo Congresso Nacional.

O governo perderá arrecadação com o fim das bets?

Enquanto a proibição impedir a operação regular do setor, a arrecadação futura diretamente ligada às bets deixa de ocorrer. Como referência, no primeiro semestre de 2025 o mercado regulado gerou aproximadamente R$ 3,8 bilhões em tributos federais e R$ 2,14 bilhões em destinações sociais, segundo o TCU.

Quanto as bets pagavam aos clubes brasileiros?

Os clubes da Série A receberam aproximadamente R$ 1,03 bilhão em patrocínios de empresas de apostas em 2025, segundo levantamento da consultoria Convocados.

Quanto as famílias brasileiras perderam nas bets?

A estimativa divulgada pelo Comsefaz calcula aproximadamente R$ 62,5 bilhões em perdas líquidas das famílias em 2025.

O dinheiro que não for mais apostado pode voltar para a economia?

Parte pode ser redirecionada para consumo, pagamento de dívidas ou poupança, mas ainda não é possível medir quanto seguirá cada caminho. Também existe o risco de uma parcela migrar para plataformas clandestinas.


Nota editorial

Este artigo foi preparado e revisado com informações disponíveis até 28 de setembro de 2026. Como a proibição das bets foi estabelecida por medida provisória e ainda está sujeita à tramitação no Congresso Nacional, regras, prazos e efeitos econômicos podem sofrer alterações. Valores de arrecadação, perdas líquidas das famílias, custos sociais e impactos sobre o PIB vêm de fontes e metodologias diferentes; por isso, não devem ser somados ou subtraídos como se fossem grandezas diretamente comparáveis.

Vídeo de referência

O vídeo de Peter Jordan foi utilizado como referência editorial para identificar questões relevantes sobre publicidade digital, criadores de conteúdo e os efeitos indiretos da saída das bets. Os dados econômicos e jurídicos deste artigo foram checados separadamente.

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