Troca de acusações, questionamentos públicos entre ministros, relatórios da Polícia Federal e uma sessão extraordinária que terminou sem resolver as principais dúvidas.
O Supremo Tribunal Federal vive uma disputa interna incomum — e o clima da sessão de 15 de setembro fez muita gente nas redes sociais comparar o episódio, em tom de brincadeira, a uma disputa esportiva.
Daí vem a pergunta do título: “UFC do STF?”
Mas, por trás do tom bem-humorado, há uma discussão institucional séria envolvendo investigações relacionadas ao Banco Master, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e questionamentos sobre as atuações dos ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça.
O caso ganhou um novo capítulo nesta semana. André Mendonça apresentou manifestação ao presidente do STF, Edson Fachin, negando irregularidades e pedindo o arquivamento da representação feita contra ele por Alexandre de Moraes. No mesmo documento, também pediu que fossem avaliadas possíveis condutas atribuídas a Moraes. Essas são alegações submetidas à análise do Tribunal — não conclusões já comprovadas.
O que está acontecendo no STF?
Para entender a confusão, é preciso separar dois procedimentos. Um deles envolve informações produzidas nas investigações do Banco Master e referências a Alexandre de Moraes. O outro surgiu a partir de questionamentos apresentados por Moraes sobre a atuação de André Mendonça na condução de investigações relacionadas ao Banco Master e a fraudes no INSS.
Com o avanço dos casos, a discussão deixou de ficar restrita aos documentos judiciais. Os próprios ministros passaram a divergir publicamente sobre procedimentos, provas e a forma de condução das investigações.
Como o Banco Master entrou nessa história?
O Banco Master foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em novembro de 2025. A instituição já era alvo da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga suspeitas de irregularidades financeiras. Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco, tornou-se uma das principais figuras da investigação.
Durante as apurações, dados extraídos de aparelhos apreendidos passaram a integrar relatórios da Polícia Federal. Parte desse material chegou ao Supremo e provocou questionamentos sobre possíveis contatos entre Vorcaro e integrantes do Judiciário.
Um cuidado é essencial: ter um nome citado em mensagens, documentos ou relatórios policiais não significa automaticamente participação em crime. O conteúdo, a origem e o valor probatório de cada elemento ainda precisam ser analisados juridicamente.
E Alexandre de Moraes?
Informações das investigações relacionadas ao Banco Master passaram a levantar questionamentos sobre contatos atribuídos a Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes. Moraes contestou as interpretações feitas a partir desse material, questionou a validade de relatórios da Polícia Federal e negou ter praticado ato destinado a favorecer o Banco Master.
Além disso, Moraes apresentou questionamentos contra a atuação de André Mendonça. A partir daí, o conflito passou a envolver não apenas as suspeitas originais relacionadas ao caso Master, mas também a maneira como as próprias investigações estavam sendo conduzidas.
André Mendonça também passou a ser questionado
Mendonça também passou a enfrentar questionamentos sobre decisões tomadas durante as apurações. Alexandre de Moraes apresentou uma representação apontando possíveis irregularidades. Mendonça nega ter cometido abuso ou irregularidade.
A existência da representação, por si só, não equivale a condenação ou comprovação das acusações.
Fachin entra no centro da disputa
Diante do aumento da tensão, o presidente do STF, Edson Fachin, passou a atuar diretamente na organização da tramitação dos procedimentos. A Presidência do Supremo adotou medidas para centralizar determinadas discussões e levar questões ao Plenário.
Foi nesse cenário que o STF realizou uma sessão extraordinária em 15 de setembro de 2026.
A sessão de 15 de setembro
O ponto central naquele momento era definir como o Supremo deveria tratar os procedimentos relacionados aos dois ministros. Uma das questões era justamente se os casos envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça deveriam ser analisados conjuntamente.
Segundo o próprio STF, quando a sessão foi suspensa, o Plenário examinava uma questão de ordem sobre a possível reunião das Petições 16.662 e 16.704. O mérito da Petição 16.662 não chegou a ser examinado. Confira a informação oficial do STF.
Moraes e Mendonça trocaram acusações
Durante a sessão, Alexandre de Moraes fez críticas à condução das investigações e apresentou acusações sobre a atuação de André Mendonça. Mendonça respondeu e rejeitou as afirmações.
Em determinados momentos, o confronto verbal ficou explícito, com questionamentos sobre a atuação da Polícia Federal, testemunhas e procedimentos adotados nas investigações. Outros ministros também participaram das discussões.
O episódio ganhou repercussão justamente porque divergências que normalmente aparecem em votos e decisões judiciais passaram a ocorrer de forma aberta durante a sessão.
O STF decidiu investigar Alexandre de Moraes?
Não houve, na sessão de 15 de setembro, uma decisão final do Plenário sobre o mérito das principais acusações discutidas.
O ministro Flávio Dino pediu vista, ou seja, mais tempo para analisar a questão. Por isso, não é correto apresentar aquele julgamento como se o STF já tivesse concluído que Moraes praticou alguma irregularidade.
Também não houve naquela sessão uma decisão definitiva reconhecendo irregularidades praticadas por André Mendonça.
E o julgamento envolvendo Mendonça?
A Petição 16.704 estava prevista para ser julgada em 23 de setembro. Entretanto, o STF informou oficialmente que a análise seria redesignada depois que o Plenário definisse os parâmetros da questão de ordem relacionada às duas petições.
No informe oficial de 17 de setembro, o Supremo explicou que a discussão sobre a possível reunião dos processos tem relação direta com a Petição 16.704.
O novo capítulo: Mendonça responde às acusações
Nesta semana, André Mendonça apresentou sua resposta à representação feita por Alexandre de Moraes. O ministro negou irregularidades e pediu o arquivamento da representação.
Mendonça também contestou aspectos de relatórios da Polícia Federal utilizados no procedimento e pediu que possíveis condutas atribuídas a Moraes fossem avaliadas. Novamente, trata-se de alegações apresentadas em um procedimento ainda em andamento.
O que realmente está confirmado?
- existem procedimentos no STF relacionados às investigações do Banco Master;
- relatórios da Polícia Federal fazem parte da discussão;
- Alexandre de Moraes apresentou questionamentos sobre a atuação de André Mendonça;
- Mendonça rejeitou as acusações e também apresentou questionamentos sobre a atuação de Moraes;
- houve discussões públicas entre ministros na sessão de 15 de setembro;
- Flávio Dino pediu vista;
- o mérito da Petição 16.662 não foi examinado naquela sessão;
- a sessão da Petição 16.704 prevista para 23 de setembro deverá ser redesignada.
O que ainda não está decidido?
- se houve atuação irregular de Alexandre de Moraes;
- se houve atuação irregular de André Mendonça;
- qual valor jurídico será atribuído aos diferentes relatórios e elementos apresentados;
- se os procedimentos tramitarão conjuntamente;
- qual será a tramitação definitiva de cada caso;
- e se alguma das acusações resultará em investigação, arquivamento ou outra medida.
Essa diferença entre acusação, investigação e conclusão judicial é fundamental para acompanhar o caso sem transformar suspeitas em fatos comprovados.
Por que essa disputa importa?
Não estamos falando apenas de uma briga entre ministros. As discussões envolvem a condução de investigações de grande repercussão, o funcionamento da Polícia Federal, o caso Banco Master e a própria forma como o Supremo trata situações que mencionem integrantes da Corte.
Há ainda uma questão institucional importante: como investigar fatos que mencionam ministros do próprio Supremo preservando, ao mesmo tempo, o devido processo, o direito de defesa e a independência das instituições?
Afinal, virou “UFC do STF”?
Não literalmente. O apelido funciona como uma brincadeira para representar o grau de tensão que se tornou público durante a sessão.
O que está sendo discutido, porém, é muito mais sério do que uma disputa pessoal. Existem investigações, alegações de irregularidades, divergências sobre procedimentos e decisões que ainda deverão ser tomadas pelo Supremo.
E talvez esse seja o detalhe mais importante de toda a história: apesar da troca de acusações, muitas das principais questões jurídicas continuam sem resposta definitiva.
O que observar agora?
Os próximos capítulos dependem principalmente da retomada da questão interrompida pelo pedido de vista de Flávio Dino e da definição sobre a relação entre as Petições 16.662 e 16.704.
Enquanto isso, manchetes que afirmem que determinado ministro “foi condenado”, “foi inocentado” ou que alguma acusação “já foi comprovada” merecem cautela. O caso continua em andamento.
Quer entender a cronologia também em vídeo?
O vídeo abaixo reúne, em ordem cronológica, acontecimentos relacionados ao Banco Master e à crise no STF. Como o caso continua recebendo novos desdobramentos, algumas informações refletem o momento em que o vídeo foi gravado. As atualizações posteriores foram incorporadas neste artigo.
Leia também: Quem é Daniel Vorcaro? Entenda o caso Banco Master e o que aconteceu com os investidores.
Fontes consultadas
- Supremo Tribunal Federal — pedido de vista na Petição 16.662
- Supremo Tribunal Federal — informe sobre a Petição 16.704
- Polícia Federal — informações e investigações relacionadas à Operação Compliance Zero.
- Banco Central do Brasil — informações sobre a liquidação do Banco Master.
- Vídeo do YouTube incorporado acima, utilizado como referência audiovisual complementar.
