Tragédia no Nepal continua: avalanche mortal deixa rastro de dor e milhares de desaparecidos

Por Paula Guarini

Quase um mês após o desastre que atingiu o norte do Nepal, mais de 1.400 pessoas morreram e milhares continuam desaparecidas. As buscas avançam por áreas soterradas e por túneis de projetos hidrelétricos, enquanto o governo começa a discutir a reconstrução de comunidades inteiras em locais considerados mais seguros.

Uma investigação publicada pela Reuters em 21 de setembro mostra que equipes de resgate passaram semanas perfurando áreas bloqueadas, utilizando explosões controladas e máquinas pesadas para tentar alcançar estruturas escondidas dentro das montanhas.

Antes e depois do local atingido no Nepal

A comparação abaixo mostra o mesmo trecho de Betrawati e Gerkhu antes e depois da enchente, permitindo visualizar de forma imediata o alargamento do rio e o avanço dos sedimentos sobre o vale.

Comparação real por satélite de Betrawati e Gerkhu, no Nepal, antes e depois da enchente de agosto de 2026
ANTES
DEPOIS
IMAGENS DE SATÉLITE:
VEJA ANTES E DEPOIS
Comparação do mesmo local antes e depois do desastre. Imagens reais de satélite do Copernicus Sentinel-2 / União Europeia. Ver fonte oficial.

O que aconteceu no Nepal?

O desastre começou em 26 de agosto de 2026. Segundo a análise científica do World Weather Attribution, uma grande parede rochosa de Langtang Lirung entrou em colapso a cerca de 5.150 metros de altitude e também provocou o desabamento de parte da geleira que estava sobre ela.

O evento envolveu aproximadamente 2 km² de rocha e gelo. O material caiu cerca de 1.400 metros até o fundo do vale e formou uma avalanche de rocha e gelo que rapidamente se transformou em uma inundação de detritos e, depois, em uma enchente repentina dominada por água.

A força foi extrema: uma parede de água, gelo, rocha e sedimentos percorreu cerca de 22 quilômetros até Rasuwagadhi em apenas sete minutos, o que corresponde a uma velocidade média estimada em 188 km/h. Instalações de fronteira, mercados, estradas, pontes, comunidades e projetos hidrelétricos foram atingidos ao longo do caminho.

Por que os túneis das hidrelétricas dificultam as buscas?

Vários projetos hidrelétricos ficam ao longo do sistema do rio Trishuli e utilizam túneis escavados no interior das montanhas. Quando a massa de água, lama, gelo, rochas e madeira atravessou o vale, algumas dessas estruturas ficaram soterradas ou bloqueadas.

Autoridades acreditam que trabalhadores estavam dentro de parte desses túneis no momento da tragédia. Segundo a investigação publicada pela Reuters em 21 de setembro, as equipes precisam localizar entradas cobertas por detritos e abrir novos acessos para avançar pelas galerias subterrâneas.

O trabalho é lento e arriscado. Resgatistas vêm utilizando perfuração, explosões controladas e equipamentos pesados. Até a publicação da investigação, apenas alguns sobreviventes haviam sido encontrados nessas instalações e mais de duas dezenas de corpos tinham sido recuperados dos túneis e áreas relacionadas às hidrelétricas.

Quantas pessoas morreram e quantas continuam desaparecidas?

Os números ainda variam conforme a fonte e o momento de atualização. Segundo informação da Radio Nepal, baseada em dados da Polícia do Nepal, às 11h de 20 de setembro haviam sido recuperados 1.436 corpos e 4.655 pessoas continuavam desaparecidas.

Já a consolidação publicada pela Reuters em 21 de setembro registra mais de 1.400 mortos e aproximadamente 5.700 desaparecidos. Como as listas continuam sendo revisadas, os números neste artigo aparecem acompanhados de data e fonte para evitar que estimativas diferentes sejam tratadas como se fossem um balanço único e definitivo.

Identificação das vítimas depende de exames de DNA

Outro desafio é identificar os corpos recuperados. A Polícia do Nepal informou que já foram coletadas 3.283 amostras de DNA: 1.286 de vítimas e 1.997 de familiares.

A própria Polícia do Nepal publicou orientações para parentes que vivem no exterior, permitindo o envio de perfis genéticos produzidos em outros países para comparação com restos mortais encontrados após a enchente.

A mudança climática causou o colapso?

A resposta científica exige cautela. O World Weather Attribution não apresenta a mudança climática como causa única do desastre. A análise afirma que a estrutura geológica controlou onde e como a encosta falhou, enquanto o aquecimento de longo prazo, o degelo do permafrost, a perda de gelo e mudanças na precipitação podem ter reduzido a estabilidade da montanha.

Os pesquisadores descrevem o aquecimento como um fator de desestabilização agindo sobre uma predisposição geológica pré-existente. Eles também deixam claro que não avaliaram se esta avalanche específica teria ou não ocorrido sem a influência humana sobre o clima.

Governo anuncia reconstrução em áreas mais seguras

Nesta segunda-feira, 21 de setembro, o governo nepalês anunciou uma nova etapa da resposta. Segundo a Radio Nepal, o ministro de Desenvolvimento de Infraestrutura, Sunil Lamsal, afirmou que comunidades situadas em áreas de alto risco nos corredores dos rios Bhotekoshi e Trishuli serão transferidas e reconstruídas em locais considerados mais seguros.

O governo também prevê avaliações de risco antes da reconstrução de estradas, recuperação de pontes destruídas e instalação de estruturas provisórias para restabelecer a ligação entre localidades atingidas.

O desastre continua muito depois da enchente

Para mim, um dos pontos mais importantes dessa história aparece justamente agora, quando as primeiras imagens do desastre já deixaram de ocupar o centro das manchetes.

Uma tragédia dessa dimensão não termina quando a água baixa. Permanecem famílias esperando a identificação de parentes, comunidades sem condições de voltar para casa, trabalhadores procurando desaparecidos e um país inteiro precisando decidir onde e como reconstruir.

O caso do Nepal mostra ainda que reconstruir não pode significar simplesmente colocar tudo de volta no mesmo lugar. Quando o próprio território apresenta riscos que estão mudando, mapas de vulnerabilidade, monitoramento de geleiras e encostas, planejamento das hidrelétricas, rotas de evacuação e sistemas de alerta passam a fazer parte da segurança humana e econômica das comunidades.


Fontes consultadas

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