Imagine ligar uma espécie de sistema de irrigação sobre o telhado da própria casa sempre que o calor aperta.
Foi essa a solução adotada por um morador de Teresina, no Piauí. Em vez de usar os aspersores apenas em plantas, ele resolveu espalhar água diretamente sobre as telhas na tentativa de diminuir o calor dentro da residência.
A ideia parece improvisada, mas levanta uma pergunta interessante: molhar o telhado realmente consegue refrescar uma casa?
A resposta é: o princípio funciona, mas o resultado dentro do imóvel pode ser bem menor do que a redução observada no próprio telhado.
Como surgiu a ideia em Teresina?
O caso ganhou repercussão em setembro de 2025. Carlos Henrique, então com 55 anos, instalou o sistema no telhado da casa onde mora, no bairro Santa Maria, em Teresina.
Com experiência em irrigação hidráulica, ele começou utilizando apenas um girador. Como a água não alcançava toda a cobertura, posteriormente instalou outros dois.
Segundo o relato divulgado na época, o equipamento custou aproximadamente R$ 300. Carlos afirmou que cerca de 15 minutos de funcionamento já ajudavam a refrescar o ambiente e estimou que a utilização acrescentava aproximadamente R$ 10 a R$ 30 à conta de água. Esses valores, porém, são estimativas feitas pelo próprio morador e não resultados de uma análise técnica independente. Veja a reportagem sobre o caso.
Por que jogar água no telhado pode funcionar?
Durante um dia muito quente, o telhado recebe radiação solar durante várias horas e pode acumular bastante calor. Parte dessa energia acaba sendo transferida para o interior da construção.
Quando água é espalhada sobre uma superfície quente, ela absorve energia e parte dela evapora. Esse processo pode diminuir a temperatura da cobertura e, consequentemente, reduzir parte do calor que atravessaria o telhado.
Esse mecanismo é conhecido como resfriamento evaporativo.
E não se trata apenas de uma ideia caseira. Sistemas de roof-spray cooling, ou resfriamento de telhado por aspersão, são estudados há décadas. Um estudo publicado no International Journal of Energy Research analisou esse tipo de solução.
Quanto a temperatura pode diminuir?
Aqui está o ponto que merece cuidado.
Em um experimento realizado em um edifício de concreto armado no Japão, pesquisadores observaram uma redução de aproximadamente 20 °C na temperatura da superfície do telhado durante a aspersão.
Mas isso não significou que o interior do prédio ficou 20 graus mais frio.
A redução registrada na temperatura de globo interna ficou próxima de 1 °C. Consulte o estudo no J-STAGE.
Outro estudo experimental realizado em condições de clima quente e seco encontrou redução importante na temperatura do teto e no fluxo de calor através da cobertura utilizando sistemas de aspersão. Veja o estudo na ScienceDirect.
Portanto, é importante separar duas coisas: o telhado pode esfriar bastante, enquanto a mudança percebida dentro da casa pode ser muito menor.
Então funciona em qualquer casa?
Não.
O resultado pode mudar de acordo com características como o material do telhado, isolamento térmico, incidência do sol, ventilação, umidade do ar, quantidade de água utilizada e características da própria construção.
Também não é recomendável simplesmente improvisar uma instalação sem observar as condições do imóvel. Água próxima a instalações elétricas, infiltrações, telhas danificadas e desperdício são fatores que precisam ser considerados.
O caso de Teresina mostra uma solução criativa, não uma receita que produzirá o mesmo resultado em todas as residências.
Mas será que financeiramente compensa?
É aqui que a experiência fica ainda mais interessante.
Imagine que uma família instale um sistema desses com o objetivo de utilizar menos ventilador ou ar-condicionado.
Existe um possível benefício, mas também aparecem novos custos.
É preciso considerar o valor da instalação, consumo adicional de água, eventual manutenção e quanto o sistema realmente consegue reduzir o uso de energia elétrica.
Sem comparar essas despesas, seria precipitado afirmar que a solução gera economia.
Uma alternativa aparentemente barata só representa economia quando o benefício obtido supera os custos que ela acrescenta ao orçamento.
O que essa experiência ensina sobre o nosso dinheiro?
Esse raciocínio não vale apenas para um sistema instalado no telhado.
Muitas decisões financeiras parecem vantajosas quando olhamos somente para o preço inicial. Porém, uma escolha também pode trazer despesas recorrentes, manutenção e outros custos que aparecem com o tempo.
Por isso, quando analiso uma possível economia doméstica, gosto de olhar para o conjunto: quanto custa começar, quanto custa manter e quanto efetivamente retorna para o orçamento.
É essa visão que também trabalho no Guia Prático — Governe Seu Dinheiro, por meio do método GSD®: entender os gastos, organizar prioridades e tomar decisões financeiras de forma mais consciente.
Guia Prático — Governe Seu Dinheiro
Se você quer organizar gastos, prioridades e decisões financeiras de forma mais consciente, o Guia Prático reúne esse processo dentro do Método GSD®.
Afinal, irrigar o telhado realmente funciona?
Sim, existe fundamento físico e científico para a ideia.
A aspersão de água pode resfriar a cobertura e diminuir parte do calor transferido para o interior da construção. O que não podemos concluir é que qualquer casa terá uma grande redução na temperatura — ou que necessariamente haverá economia na conta de energia.
A experiência de Teresina é justamente interessante por isso: uma solução aparentemente simples encontra respaldo em um princípio estudado pela engenharia, mas seu verdadeiro custo-benefício depende das condições de cada residência.
