Havan na contramão do varejo: por que a empresa cresce enquanto outras fecham lojas?

Por Paula Guarini

Megaloja da Havan em artigo sobre expansão da rede e fechamento de lojas no varejo brasileiro

Atualizado em 29 de setembro de 2026.

Enquanto algumas das maiores varejistas brasileiras reduzem suas redes de lojas, a Havan continua fazendo o movimento contrário: abrindo novas megalojas e se aproximando da marca de 200 unidades no país.

A situação chama atenção porque o varejo enfrenta juros altos, crédito mais restrito, avanço dos marketplaces e custos elevados para manter grandes operações físicas.

Então, afinal, o que a Havan está fazendo de diferente?

⚡ Resposta rápida

A Havan chega a esse período de expansão com vendas crescendo, boa geração de caixa e baixo endividamento financeiro líquido. Além disso, a loja física continua sendo o centro de seu modelo de negócio.

Enquanto algumas varejistas precisam fechar unidades para reduzir custos e recuperar rentabilidade, a Havan ainda encontra espaço para abrir novas lojas mantendo uma estrutura financeira capaz de sustentar a expansão.

A Havan realmente está crescendo enquanto outras fecham lojas?

Sim. E o contraste ficou especialmente evidente nos últimos anos.

A Havan terminou 2025 com 184 lojas físicas, sete a mais que no ano anterior, e continuou inaugurando unidades em 2026. Atualmente, a rede está com 196 megalojas em operação. A marca de 200 unidades já tem um marco anunciado: a 200ª megaloja está prevista para ser inaugurada em Boa Vista (RR) em 14 de novembro de 2026, quando a rede também passará a atuar em Roraima. Veja os detalhes da inauguração anunciada.

Do outro lado, levantamento da Broadcast repercutido pela CNN mostrou que Casas Bahia, Americanas, Carrefour, Marisa e Magazine Luiza reduziram juntas mais de 1,1 mil lojas desde o fim de 2022.

Empresa Movimento recente
Havan Continua abrindo lojas
Casas Bahia Está reduzindo fortemente sua rede
Americanas Reduziu unidades durante a reestruturação
Marisa Enxugou a rede em busca de rentabilidade
Carrefour Reduziu unidades também por integração e reorganização
Magazine Luiza Reduziu lojas e sinalizou retomada da expansão

Fechar lojas não significa necessariamente que uma empresa esteja quebrando. Os motivos são diferentes em cada companhia. Em alguns casos há crise financeira; em outros, fechamento de unidades pouco rentáveis, integração de redes ou mudança de estratégia.

O primeiro diferencial da Havan está no caixa, não no número de lojas

Uma empresa pode faturar bilhões e, ainda assim, enfrentar problemas financeiros.

Por isso, olhar apenas para vendas ou quantidade de lojas conta apenas parte da história.

Em 2025, a receita bruta da Havan chegou a aproximadamente R$ 18,34 bilhões, enquanto a receita líquida ficou em cerca de R$ 13,69 bilhões.

As demonstrações financeiras auditadas da Havan S.A. registram lucro líquido de aproximadamente R$ 1,486 bilhão em 2025, ante R$ 1,261 bilhão em 2024. Esse é o número contábil que este artigo adota como referência principal.

Há reportagens de imprensa que citam R$ 3,45 bilhões de lucro líquido para 2025. Como esse valor não coincide com o lucro líquido apresentado nas demonstrações financeiras auditadas da Havan S.A., ele não deve ser tratado aqui como equivalente ao resultado contábil da companhia sem esclarecer a base utilizada. Para evitar misturar métricas de escopos diferentes, este artigo mantém como referência o valor auditado de R$ 1,486 bilhão.

Mas outro conjunto de números ajuda ainda mais a entender a capacidade de expansão.

No fim de 2025, a companhia apresentava aproximadamente R$ 546 milhões em dívida financeira bruta e cerca de R$ 1,1 bilhão em caixa e aplicações, resultando em uma posição de caixa líquido próxima de R$ 580 milhões.

Considerando também os passivos de arrendamento, entretanto, o endividamento bruto total chegava a aproximadamente R$ 3,4 bilhões.

Abrir lojas tendo caixa para sustentar a expansão é muito diferente de crescer aumentando continuamente o endividamento.

A loja física ainda funciona para a Havan

Talvez esse seja o ponto mais curioso da história.

Em um período em que tantas empresas investem cada vez mais no comércio eletrônico, a Havan continua apostando em megalojas físicas.

Segundo informações divulgadas pela companhia e repercutidas pela imprensa, a grande maioria das vendas da Havan ainda ocorre presencialmente.

Ou seja: para a Havan, a loja física não é simplesmente uma estrutura antiga que precisa ser mantida. Ela continua sendo o centro do negócio.

A estratégia também passa pela localização. A empresa aposta fortemente em cidades-polo e mercados nos quais uma megaloja pode se transformar em destino de compras.

As unidades combinam grande variedade de produtos, estacionamento, alimentação e uma identidade visual facilmente reconhecível.

Não basta abrir lojas: elas precisam gerar dinheiro

É aqui que aparece uma das principais lições dessa comparação.

Ter muitas unidades não é necessariamente sinal de força.

Uma loja precisa vender o suficiente para pagar funcionários, ocupação do imóvel, energia, estoque, impostos, capital de giro e os demais custos da operação — e ainda produzir retorno.

O problema não é ter muitas lojas. O problema é ter lojas que consomem caixa em vez de gerar caixa.

Em 2025, além da expansão da rede, a Havan apresentou crescimento da receita e da geração operacional de resultados.

Segundo análise do Safra, a receita por loja também apresentou avanço, indicando que o crescimento não ocorreu apenas pela abertura de novos pontos.

Isso ajuda a entender por que a companhia consegue continuar expandindo: até aqui, o crescimento das unidades veio acompanhado pelo crescimento do negócio.

Então por que algumas grandes varejistas estão fechando lojas?

Não existe uma única resposta.

Na Casas Bahia, por exemplo, a redução de unidades está inserida em uma reestruturação financeira muito mais ampla. A companhia anunciou o fechamento de centenas de lojas e entrou em recuperação judicial envolvendo cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas.

Para entender melhor a situação da Casas Bahia, vale a leitura complementar sobre o tema.

A Americanas também reduziu sua rede depois da crise contábil revelada em 2023 e do processo de recuperação judicial.

A Marisa enxugou sua operação buscando uma rede menor e mais rentável.

No Carrefour, parte da redução também esteve ligada à integração do Grupo BIG e à eliminação de sobreposições.

Já o Magazine Luiza reduziu unidades em um período de maior disciplina financeira, mas também já sinalizou intenção de voltar a expandir fisicamente.

Portanto, seria errado concluir que “todo varejo físico está fracassando e apenas a Havan deu certo”.

Com juros elevados, estoques caros e forte concorrência digital, manter uma loja que não produz retorno ficou ainda mais difícil.

Em determinadas situações, fechar unidades deficitárias pode ser justamente uma decisão necessária para preservar caixa e recuperar rentabilidade.

Afinal, o que a Havan fez diferente?

Os números apontam principalmente para quatro fatores.

  1. Entrou no ciclo recente de expansão com posição financeira relativamente confortável e caixa líquido positivo na dívida financeira.
  2. Manteve a loja física como parte central de um modelo que continua gerando vendas.
  3. Apostou em cidades-polo e mercados onde suas megalojas podem se transformar em destino de compras.
  4. Expandiu enquanto receita e geração operacional de resultados também cresceram.

Então talvez a pergunta mais importante não seja:

“Por que a Havan continua abrindo lojas?”

Mas sim:

“Por que as lojas da Havan ainda produzem retorno suficiente para justificar novas aberturas?”

E essa diferença muda completamente a análise.

Perguntas frequentes

A Havan está crescendo em 2026?

Sim. A companhia continuou inaugurando novas megalojas em 2026 depois de encerrar 2025 com crescimento de receita e expansão da rede.

Quantas lojas a Havan tem?

A Havan está com 196 megalojas em operação. A empresa já anunciou que sua 200ª megaloja será inaugurada em Boa Vista (RR), em 14 de novembro de 2026. Portanto, a marca de 200 unidades foi anunciada, mas ainda não havia sido alcançada em lojas abertas na data desta atualização.

A Havan tem dívidas?

Sim. No fim de 2025, a dívida financeira bruta era de aproximadamente R$ 546 milhões, enquanto caixa e aplicações somavam cerca de R$ 1,1 bilhão. Isso resultava em caixa líquido financeiro. Considerando também passivos de arrendamento, o endividamento bruto total era maior.

Por que a Havan continua abrindo lojas?

Não existe um único motivo. Os números recentes mostram crescimento de receita, geração de caixa, uma estrutura financeira capaz de sustentar investimentos e um modelo no qual as lojas físicas continuam tendo papel central.

Por que Casas Bahia, Americanas e Magazine Luiza fecharam lojas?

As situações são diferentes. Casas Bahia e Americanas atravessaram processos de reestruturação financeira mais profundos, enquanto outras varejistas reduziram unidades para cortar custos, aumentar rentabilidade, integrar operações ou ajustar suas estratégias.

O que o crescimento da Havan ensina sobre organização financeira

O que mais me chama atenção nesses números não é a Havan estar chegando a 200 lojas. É ela continuar abrindo novas unidades sem aparentar estar sacrificando a própria saúde financeira para crescer.

Abrir uma loja nova chama atenção. Mas, no fim das contas, ela precisa se pagar.

Para mim, essa é a principal lição dessa história: crescer não é simplesmente ficar maior. É conseguir sustentar o crescimento sem perder o controle do dinheiro.

E isso também vale para a vida financeira. Aumentar o padrão de vida, assumir novas parcelas ou gastar mais porque a renda aumentou pode parecer crescimento. Mas, se o dinheiro não sobra e as dívidas aumentam junto, talvez seja apenas um orçamento ficando maior — não necessariamente mais saudável.

O que o crescimento da Havan ensina sobre organização financeira

Assim como numa empresa, organização financeira pessoal exige saber quanto entra, quanto sai e até onde é possível crescer sem comprometer o caixa. É esse raciocínio que também trabalho no Guia Prático — Governe Seu Dinheiro.


Leia também: Depois de fechar centenas de lojas, Americanas vende imóveis: entenda o que aconteceu após a crise bilionária e Casas Bahia vai falir? Entenda o que acontece com quem comprou e ainda está pagando.

Fontes consultadas

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